Esteticamente correto
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 06 de junho de 1997
Rosângela Vale Londrina 
Em meio às frágeis transparências que predominaram nos desfiles brasileiros de inverno, vez ou outra uma espectadora mais friorenta tinha momentos de alívio na platéia. Era quando surgiam na passarela os majestosos casacos de pele, que se por um lado esquentavam os ânimos das fashion victms , por outro faziam tremer de indignação os politicamente corretos. Pura ilusão de ótica. Ao contrário dos estilistas europeus, que voltaram a usar peles de animais após um longo recesso, os brasileiros, salvo poucas exceções, optaram pelas versões sintéticas.
Walter Rodrigues é um dos que fogem à regra. Usou visom e renard (raposa) em golas dos casacos de georgete e zibeline. Para os que não vêm com bons olhos essa escolha, ele se justifica: sou contra ir lá na floresta matar os bichinhos, mas totalmente a favor de criações em cativeiro. Para o estilista, a volta das peles é reflexo de uma necessidade da moda. Chega uma hora em que é preciso dar um basta nos materiais pobres. E a pele tem muito glamour . No inverno, não existe nada mais sofisticado, observa.
Não acho nem um pouco glamourosa a matança e o extermínio de animais. A pele está na moda, mas não quer dizer que precisa ser verdadeira. As criações em cativeiro, existentes nos países nórdicos, são pequenas diante do resto do mundo que está usando pele falsa. Além de ecológica, é mais limpa, mais higiênica, o pêlo não cai e não dá cheiro, rebate Carla Becker, assistente de estilo da grife carioca Maria Bonita. Os casacos da marca não são sintéticos, mas feitos a partir de uma fibra natural derivada da lã de carneiro e importada da Alemanha.
O preço é outro ponto ponto positivo para as imitações. Enquanto um casaco de visom pode chegar a R$ 6 mil, os similares em lã ou acrílico não passam de R$ 2,7 mil. De acordo com Gerard Beyriere, gerente da tradicional loja paulista Madame Rosita, que trabalha com peles de animais há 40 anos, a comercialização atual desses produtos no Brasil é pequena. Não é como antigamente, nos anos 70 e 80, quando as mulheres brasileiras tinham o hábito de comprar peles, lembra. Para as raras proprietárias dessas preciosidades, a loja oferece um serviço de manutenção, com um frigofífico para guardá-las durante os meses de verão.
No desfile da Beneduci, as estolas e casacos de renard ou visom, que cobriam os seios nus da modelos ou contrastavam com blusas finíssimas em devoré , eram apenas parte do show. Na coleção de inverno da grife, as peles só aparecem nas golas - removíveis - de casacos de crepe de lã alemã e cardigãs de cashmere .É inadequado usar um casaco inteiro de pele em um inverno pouco rigoroso como o do Brasil, avisa Mirella Beneduci. A marca é outra exceção: também investiu em peles verdadeiras, de olho nas passarelas internacionais . Apostamos na tendência em fevereiro e ela se confirmou nos desfiles europeus de março, comemora.
Segundo Mirella, os materiais nobres, como as peles verdadeiras, são uma exigência da consumidora moderna. A mulher está retomando valores tradicionais agregados aos conceitos dos anos 90. Está mais feminina, e ao mesmo tempo, mais independente economicamente. Ela compra roupas pelo prazer pessoal, e não para ostentar. Já não tem mais pudor de vestir o que é caro, sintetiza.
Legítimas ou falsas, as peles das atuais coleções de inverno têm uma função específica. Atualmente, todos os vestidos de festa são leves e de alcinhas. Os casacos de pele servem para proteger do frio nos ambientes externos e devem ser tirados nos internos, onde há calefação, ensina Carla Fincato, assistente de estilo da marca G. Estolas e xales. Segundo ela, são próprios para acompanhar produções à noite. Os casacos tipo visita podem ser usados com calça bem justa, sobre blusa de gola rulê, com botas ou sapatilhas.


