Este festival será lembrado por essa canção
Conta a lenda que coube à pequena Nara Leão dar o toque mitológico a Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua. Na condição de presidente do júri, ela ergueu sua voz miúda ao alcance máximo e peitou seus colegas de bancada que queriam desclassificar, sabe-se lá o porquê, a música inscrita no 7º Festival Internacional da Canção. O ano, 72. Este Festival será lembrado por essa canção, profetizou a eterna musa da bossa nova. Batata: a música ficou, ganhou o público que se espremia no Maracanãzinho, no Rio de Janeiro. Ficou entre as primeiras colocadas.
Com o feito, tudo indicava que o capixaba Sérgio Sampaio (ele é de Cachoeira do Itapemirim, cidade natal do outro, aquele das gordinhas, magrinhas, míopes, etc) teria uma carreira brilhante pela frente. Sim, afinal o compacto com a música vendeu invejáveis 500 mil cópias. Mas a coisa não foi bem assim. Sérgio, deslumbrado com o sucesso, não segurou a onda e afogou-se em drogas e álcool.
Junto com as dependências químicas, adquiriu também a fama de briguento e temperamental. As gravadoras por que passou que o digam. Daí que sua discografia é muito pequena - ao todo são cinco compactos e três elepês, o último, Sinceramente, gravado em 82 de forma independente. Depois de quase 11 anos sem gravar, Sérgio Sampaio se preparava para fazer mais um disco independente que seria lançado pelo selo Baratos Afins.
Isso em 93. Deixou mais de 10 faixas gravadas na base da voz e violão. Destino traiçoeiro: quando entraria em estúdio para complementar o trabalho, morreu. De pancreatite. Era 94. Morreu quase esquecido. Ou melhor, lembrado apenas como aquele que, na década de 70, fez o Brasil inteiro botar o tal bloco na rua mesmo sob sisudos e sanguinários olhares de dirigentes militares que não tiveram capacidade intelectual de ver nas entrelinhas da canção um quê de protesto contra a ditadura. (A.M.J.)





