São Paulo - Um bom barulho sempre surte efeito. Pressionadas pelas acusações de ''dirigismo cultural'' feitas por um grupo de cineastas do Rio de Janeiro, as estatais Eletrobrás e Furnas Centrais Elétricas retiraram de seus sites as normas que haviam preestabelecido para o patrocínio de produtos culturais, sociais e de saúde.
A Eletrobrás até fez um mea-culpa, em um comunicado no qual explica as razões que levaram a empresa a retirar suas propostas. ''A proposta da Eletrobrás foi objeto de interpretações equivocadas'', afirma o comunicado. ''No intuito de esclarecer a sociedade, já no sábado, dia 3 de maio, o presidente da Eletrobrás (Luiz Pinguelli Rosa), concedeu uma entrevista a uma emissora de TV, procurando desfazer tais interpretações e reafirmando os propósitos do governo Lula. Na segunda-feira, dia 5, contatamos renomados integrantes da classe artística, convidando-os para discutir possíveis modificações no texto da proposta, a fim de evitar mal-entendidos. Em seguida, manifestamos nossa opinião, por intermédio de entrevistas concedidas a jornais de grande circulação.''
A Eletrobrás informa que vai revisar o texto ''de modo a deixar clara'' sua posição, que seria ''estender a arte a um maior número de pessoas, sem prejuízo da liberdade de expressão''.
A empresa Furnas Centrais Elétricas não divulgou nenhum comunicado. O patrocínio cultural de Furnas vai do Museu de Arte Moderna do Rio à Biblioteca Nacional, e também atinge o esporte amador, a saúde (patrocina a Santa Casa de Misericórdia de Nova Esperança, em Minas) e o social (ações com crianças carentes em Foz do Iguaçu, por exemplo).
Recentemente, a empresa patrocinou filmes de dois dos maiores críticos do que ficou conhecido como ''dirigismo cultural'': Cacá Diegues e Zelito Viana. De Cacá Diegues, a empresa aprovou patrocínio para sua produtora, Rio Vermelho Filmes Ltda., verba destinada à produção do longa-metragem ''Deus É Brasileiro''. Em seus patrocínios, Furnas utiliza os benefícios fiscais da Lei Rouanet - em troca do benefício à produtora, a empresa teve sua logomarca nos créditos do filme e em todo o material de divulgação da obra. De Zelito Viana, Furnas patrocinou o seu longa-metragem mais recente, ''Villa Lobos - Uma Vida de Paixão''. Trata-se de um projeto multimídia que incluiu filme longa-metragem, edição de livro ilustrado, CD duplo com obras selecionadas do compositor e edição de CD-ROM e da home page. Escrito e dirigido por Zelito Viana, tem no elenco Antonio Fagundes, José Wilker e Marieta Severo.
O processo para a condução das novas regras de patrocínio será estabelecido pelo Ministério da Cultura, por determinação direta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo o ministro Gilberto Gil, o processo envolverá ''muita conversa e diálogo''. Documento divulgado pela Secretaria de Comunicação (Secom) esta semana sugeria ''um processo democrático, aberto e transparente, com a participação ampla dos setores da área cultural e, inclusive, convidando representantes de empresas privadas, com ênfase nas estatais'', para a definição das regras.

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