Para o escritor norte-americano Harold Brodkey a vida é um jogo de regras não muito definidas. Não seria aconselhável passar toda a existência procurando entender as regras do jogo, seria melhor jogá-lo. A vida como um jogo em que só percebemos as regras durante ou após o jogo, nunca antes.
Autor de uma obra densa e controvertida, Harold Brodkey escreve como se estivesse num tabuleiro onde sensações e processos mentais devoram peças por peças tentando entender as regras do jogo. No fundo as regras do jogo não possuem nenhuma importância, seu grande interesse está em jogar.
A Editora Imago acaba de colocar nas livrarias o primeiro livro de Brodkey lançado no Brasil, ‘‘Quatro Histórias ao Modo Quase Clássico’’. Com uma narrativa densa, a obra reúne quatro contos que giram em torno de um tema recorrente: sexo. Sexo como jogo. Um jogo não apenas do corpo, mas da mente.
O conto que abre o volume, ‘‘Inocência’’ é basicamente a relação sexual entre o narrador e sua namorada chamada Orra. O texto é uma alucinada tentativa de se entender o parceiro num jogo sexual onde as regras são tão instáveis que qualquer situação é possível, até mesmo o prazer, a felicidade. Brodkey descreve, por mais de vinte páginas, uma cena de sexo oral como um navegador descobrindo um desconhecido e surpreendente continente.
No conto ‘‘Brincadeira’’ o autor narra a experiência de um garoto que, brincando debaixo da cama com um amigo, tem seu primeiro orgasmo involuntário. Envolvendo o leitor numa espiral mental de sensações, o texto consegue conferir sentidos palpáveis a percepções impalpáveis. O ato de se realizar uma ação pode receber vários nomes, mas aquilo que é sentido na realização da ação talvez não possa ser nomeado.
Em ‘‘Uma História ao Modo Quase Clássico’’, conto que dá título ao livro, Brodkey realiza um comovente relato autobiográfico sobre sua adolescência. Em suas palavras: treze anos é uma idade que dá vazão a dramas - é a idade cela de prisão, exilada da infância pelo arranque da capacidade sexual e separada da vida que se tem pela frente por um resquício de inocência.
Mais especificamente, o relato se debruça sobre a relação do autor e sua mãe adotiva que sofria de câncer: Meus protagonistas são a voz de minha mãe e meus pensamentos quando eu tinha treze anos. Desgraças e dores pontuam a descoberta de um mundo onde as únicas esperanças são aquelas que cada um consegue construir.
Nascido em 1930, Harold Brodkey cresceu em Missouri e estudou em Harvard. Publicou seus primeiros escritos na década de 50. Sua obra não é extensa, lançou apenas três livros de contos de dois romances. Alguns críticos chegaram a compará-lo com Proust e Faulkner. Em 1993 descobriu ser portador do vírus da Aids. Assumindo publicamente ser HIV positivo, passou a escrever um relato autobiográfico sobre o cotidiano da doença e a proximidade da morte.
Publicado no mesmo ano de seu falecimento, 1996, o relato ‘‘This Wild Darkness’’ entrou para a história literária como um dos livros mais contundente sobre a condição de um doente frente a morte.
Para Brodkey ‘‘tudo é jogo’’. Não o tipo de jogo onde um ganha e outro perde, mas um tipo de jogo em que as partes envolvidas oferecem estímulos para a vivência que esperam. E nada é tão certo quanto as incertezas.
•‘‘Quatro História ao Modo Quase Clássico’’ de Harold Brodkey, Editora Imago, tradução de Ruy Vasconcelos, 177 páginas, R$ 18,00.ReproduçãoAlguns críticos compararam Brodkey a Proust e FaulknerMarcos Losnak
Especial para a Folha2

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