Estação jeans
PUBLICAÇÃO
domingo, 07 de dezembro de 1997
Rosângela Vale 
Texto e produção
Plataforma da Arezzo: para consumidores com personalidade e atitudeJeans não é mais sinônimo só de calças compridas. Pelo menos enquanto durar o verão. É que nesta temporada a moda resolveu pintar de índigo blue todas as peças do guarda-roupa. O resultado já está nas vitrines - e nas ruas - de todo o país: de terninhos a biquínis, a nova onda inclui até mesmo acessórios como bolsas, sandálias, cintos e tiaras. Mas não vale qualquer tom de azul. Apesar da ditadura fashion já ter sido desbancada - vale tudo agora - o jeans do momento é profundamente escuro, e chega à beira do próximo século exatamente como nasceu: sem lavagem ou encolhimento prévios, em estado bruto.
A volta à origem do jeans é uma tendência mundial. O próprio mercado pediu isso. As pessoas estavam querendo novidade, justifica a diretora de marketing da Forum, Tânia Otranto. A resposta para tal necessidade não chega a ser propriamente uma novidade, mas afinal de contas, alguns jovens de hoje - principais alvos do modismo - nem sequer sabem quem foi Marlon Brando ou James Dean, muito menos que na década de 50 eles transformaram o modelo escuro em uma coqueluche mundial através das telas do cinema.
O jeans chega aos pés com conforto no chinelo da Controvérsia
De acordo com Tânia, o retorno ao jeans bruto é ancorado em um conceito bem atual: o de personalizar, dar um estilo individual às roupas. Como ele é original, oferece mais possibilidades de intervenção, principalmente na calça reta. A pessoa pode lavar quantas vezes quiser, até atingir o tom e o comprimento desejado, explica. Para quem prefere manter a peça no tom escuro, ela recomenda lavar sempre pelo lado avesso.
Quanto à barra, a decisão fica à gosto do freguês, mas moderno mesmo é virá-la, fazendo uma só dobra, e de preferência, bem larga. Algumas grifes investiram na onda com um apelo extra: decoraram o avesso das calças com desenhos em vermelho; quando a barra é dobrada, eles aparecem e diferenciam o visual.
TecnologiaHoje, o jeans não tem somente o apelo esportivo, mas também o toque sofisticado e clean da alfaiataria. Nós bebemos nessa fonte para trazer a tendência aos sapatos, observa Fanny Littmann, consultora de moda da Arezzo. A grife mineira fez sandálias plataforma, tamancos e shopping bags em jeans, e já começa a vislumbrar os resultados do investimento. É o melhor verão da Arezzo em 25 anos de existência da marca. Nunca se vendeu tanto,, revela.
Segundo Fanny, os modelos em jeans são os preferidos dos consumidores que têm personalidade e atitude. Apesar do entusiasmo desse público mais descolado, ela prevê que o modismo terá vida curta. A história do jeans nos sapatos começou neste verão e vai terminar neste verão, ao contrário das roupas, diz.
O jeans bruto oferece mais possibilidades de intervenção
Acredito que o jeans original vai continuar na moda por mais duas ou três estações, antecipa o estilista da Vide Bula, Amarildo Ferreira. Ele explica que houve uma certa retração do mercado em relação ao jeans lavado. As pessoas estavam querendo coisas mais simples. É como ir sempre a festas, e de repente ser convidado para ir a uma fazenda e se deslumbrar com o fogão à lenha, compara.
Mas nem só de passado vive a moda jeans. A tecnologia têxtil atual possibilitou uma série de misturas que deram uma cara nova a esse clássico do guarda-roupa. O stretch, por exemplo, trouxe elasticidade ao índigo e permitiu modelagens mais próximas ao corpo. Nesta temporada, a maior novidade é o jeans brilhante, com nylon na sua trama. A Vide Bula e a M. Officer apostaram na idéia e deram um ar futurista à calças, tops e minissaias.
Transformar o mais básico entre os básicos em artigo fashion foi a solução que a indústria da moda encontrou para sanar a crise que o produto vem amargando nos últimos tempos. As vendas de jeans estão caindo no mundo inteiro. Era preciso buscar novas idéias ou reciclar antigas, revela o empresário Carlos Miéle, proprietário da M. Officer.
Além do nylon, também entra na trama do novo jeans o tencel, uma fibra totalmente natural, extraída da polpa da celulose de árvores reflorestáveis, sem o uso de produtos químicos e sem a emissão de resíduos tóxicos. Além de ser ecologicamente correto, o tencel garante maciez e conforto extra. Usado pela maioria das grifes brasileiras há pouco mais de dois anos, tudo indica que ela veio para ficar.
Na virada do milênio, a ecologia será a grande força. Os consumidores vão olhar por dentro do produto: como foi feito e por quem foi feito. Vão questionar se houve respeito ecológico e humano no processo de fabricação, dispara Miéle. Atento a essas previsões, ele mantêm nas prateleiras das suas lojas desde 95 um jeans confeccionado com embalagens plásticas de refrigerante, conhecido por PET. O tecido é composto por 80% de algodão e 20% de polietileno, ficando mais resistente e macio que o jeans tradicional. É um produto para formadores de opinião; correponde a apenas 5% da nossa produção total, mas é preciso apostar em novas idéias, ressalta.
Ficha Técnica
Fotos: Paulo Wofgang
Modelo: Fernanda Guerra
Cabelo e maquiagem: Olavo Gomes
Agradecimentos: Recos, Mug, Virhus, Zoomp e Studio Mario Mori


