São Paulo, 23 (AE) - A cidade de São Paulo não tem muitos motivos para orgulhar-se das obras de arte instaladas em locais públicos, incluindo aí as estações de metrô. Poluída por esculturas que imitam carrinhos de corrida, caravelas cabralinas e falsos cristais, há algum tempo a metrópole não recebe uma escultura condizente com sua importância. Amanhã (24), felizmente, São Paulo ganha um presente, o conjunto de esculturas "Caleidoscópio", da artista plástica Amélia Toledo, que será entregue aos passageiros da Estação Brás do Metrô, às 11 horas, com a presença da autora e do presidente da Companhia do Metropolitano de São Paulo, Caetano Giannini Netto.
Uma das mais respeitadas artistas da geração de Mira Schendel e Iberê Camargo, Amélia Toledo escolheu a estação do Brás para instalar sua escultura por duas razões: a primeira, de ordem sentimental, diz respeito ao passado da pintora, que visitava os avós no Belenzinho, e a segunda projeta o futuro, considerando o entroncamento com os trens da estrada de ferro programado para o limiar do novo século. Por enquanto, o movimento na estação do Brás ainda é pequeno, mas a futura configuração vai projetar grandes sombras nos módulos de aço inoxidável da peça.
O conjunto "Caleidoscópio" é composto por 25 módulos de aço curvados em calandra. A superfície das placas, que têm mais de 2 metros de altura, receberam diferentes tratamentos. Algumas foram escovadas, muitas delas foram polidas e outras, pintadas de azul ou violeta. Os módulos polidos refletem a imagem dos passageiros, seus movimentos pela estação e as cores das placas. O público participa dessas mudanças incessantes de luz e cor e vê a própria imagem distorcida, cumprindo a trajetória interativa prevista pelo projeto.
Amélia, que deu aulas de arquitetura e programação visual para grandes nomes das artes, sempre esteve empenhada na comunicação com o grande público e na recuperação do espaço urbano da metrópole. Autora do primeiro troféu do Prêmio Multicultural Estadão e do projeto visual da Estação Copacabana do Metrô, ela tem obras em outros edifícios públicos (o Instituto Rio Branco, em Brasília) e pretende intensificar sua atuação em São Paulo, promovendo o resgate de espaços degradados
como os viadutos da cidade.
"Não adianta pensar apenas na instalação de obras de arte nesses locais, é preciso uma ação eficaz, uma faxina geral na cidade", diz. "Em resumo, a revitalização desses espaços depende da dignificação de lugares como a parte inferior do elevado", conclui. Ela cita a rigorosa limpeza do metrô como componente do estímulo à conservação das estações e das obras de arte que integram esse acervo público. Trabalho conjunto - Amélia Toledo, que inaugura em setembro uma grande mostra na galeria do Sesi Paulista, pretende levar à administração municipal algumas sugestões para a recuperação de locais públicos hoje degradados. A experiência bem-sucedida do metrô de Copacabana, onde foram utilizados diversos tipos de granito, mostra que o público, impressionado com a beleza das pedras e convivendo diariamente com elas, tem colaborado com a preservação da área.
A artista, que usa as pedras e suas cores com objetivos terapêuticos, acredita que a energia transmitida por um bloco mineral muda a relação do público com a cidade. Na exposição do Sesi, o visitante poderá, assim, manipular parte das obras. "Quando o público toma consciência da cidade em que vive, vê onde está pisando, sua relação com ela muda", observa a artista. De fato, o luxuoso painel de granito que forma o piso da Estação Copacabana tem feito o carioca sentir um orgulho há muito não experimentado em sua cidade, transformada em cenário de faroeste.
"A exposição do Sesi vai mostrar um pouco do que a natureza esconde na escuridão, pedras fosforescentes de incrível beleza", adianta. Amélia, que estudou ourivesaria na Inglaterra e desenhou jóias nos anos 50 e 60, hoje usa as pedras para criar espaços democráticos de convivência. "Se as pessoas conhecessem o efeito de uma pedra como o quartzo rosa na pacificação e nas crises do coração, tudo seria diferente", observa a artista, sugerindo a construção de muitas fontes de água e pedra na cidade. A quem possa interessar, Amélia tem um projeto de um arco de chuva tremendamente original, em que tubos projetam água como chuveiros públicos, dando um banho de arte na metrópole árida.

mockup