Estação Brás do Metrô ganha obra da artista plástica Amélia Toledo
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terça-feira, 22 de junho de 1999
Por Antônio Gonçalves Filho 
São Paulo, 23 (AE) - A cidade de São Paulo não tem muitos motivos para orgulhar-se das obras de arte instaladas em locais públicos, incluindo aí as estações de metrô. Poluída por esculturas que imitam carrinhos de corrida, caravelas cabralinas e falsos cristais, há algum tempo a metrópole não recebe uma escultura condizente com sua importância. Amanhã (24), felizmente, São Paulo ganha um presente, o conjunto de esculturas "Caleidoscópio", da artista plástica Amélia Toledo, que será entregue aos passageiros da Estação Brás do Metrô, às 11 horas, com a presença da autora e do presidente da Companhia do Metropolitano de São Paulo, Caetano Giannini Netto.
Uma das mais respeitadas artistas da geração de Mira Schendel e Iberê Camargo, Amélia Toledo escolheu a estação do Brás para instalar sua escultura por duas razões: a primeira, de ordem sentimental, diz respeito ao passado da pintora, que visitava os avós no Belenzinho, e a segunda projeta o futuro, considerando o entroncamento com os trens da estrada de ferro programado para o limiar do novo século. Por enquanto, o movimento na estação do Brás ainda é pequeno, mas a futura configuração vai projetar grandes sombras nos módulos de aço inoxidável da peça.
O conjunto "Caleidoscópio" é composto por 25 módulos de aço curvados em calandra. A superfície das placas, que têm mais de 2 metros de altura, receberam diferentes tratamentos. Algumas foram escovadas, muitas delas foram polidas e outras, pintadas de azul ou violeta. Os módulos polidos refletem a imagem dos passageiros, seus movimentos pela estação e as cores das placas. O público participa dessas mudanças incessantes de luz e cor e vê a própria imagem distorcida, cumprindo a trajetória interativa prevista pelo projeto.
Amélia, que deu aulas de arquitetura e programação visual para grandes nomes das artes, sempre esteve empenhada na comunicação com o grande público e na recuperação do espaço urbano da metrópole. Autora do primeiro troféu do Prêmio Multicultural Estadão e do projeto visual da Estação Copacabana do Metrô, ela tem obras em outros edifícios públicos (o Instituto Rio Branco, em Brasília) e pretende intensificar sua atuação em São Paulo, promovendo o resgate de espaços degradados
como os viadutos da cidade.
"Não adianta pensar apenas na instalação de obras de arte nesses locais, é preciso uma ação eficaz, uma faxina geral na cidade", diz. "Em resumo, a revitalização desses espaços depende da dignificação de lugares como a parte inferior do elevado", conclui. Ela cita a rigorosa limpeza do metrô como componente do estímulo à conservação das estações e das obras de arte que integram esse acervo público. Trabalho conjunto - Amélia Toledo, que inaugura em setembro uma grande mostra na galeria do Sesi Paulista, pretende levar à administração municipal algumas sugestões para a recuperação de locais públicos hoje degradados. A experiência bem-sucedida do metrô de Copacabana, onde foram utilizados diversos tipos de granito, mostra que o público, impressionado com a beleza das pedras e convivendo diariamente com elas, tem colaborado com a preservação da área.
A artista, que usa as pedras e suas cores com objetivos terapêuticos, acredita que a energia transmitida por um bloco mineral muda a relação do público com a cidade. Na exposição do Sesi, o visitante poderá, assim, manipular parte das obras. "Quando o público toma consciência da cidade em que vive, vê onde está pisando, sua relação com ela muda", observa a artista. De fato, o luxuoso painel de granito que forma o piso da Estação Copacabana tem feito o carioca sentir um orgulho há muito não experimentado em sua cidade, transformada em cenário de faroeste.
"A exposição do Sesi vai mostrar um pouco do que a natureza esconde na escuridão, pedras fosforescentes de incrível beleza", adianta. Amélia, que estudou ourivesaria na Inglaterra e desenhou jóias nos anos 50 e 60, hoje usa as pedras para criar espaços democráticos de convivência. "Se as pessoas conhecessem o efeito de uma pedra como o quartzo rosa na pacificação e nas crises do coração, tudo seria diferente", observa a artista, sugerindo a construção de muitas fontes de água e pedra na cidade. A quem possa interessar, Amélia tem um projeto de um arco de chuva tremendamente original, em que tubos projetam água como chuveiros públicos, dando um banho de arte na metrópole árida.


