Hoje deve ser letra morta, se é que ainda está lá, mas dizem que, nos idos de chumbo pós 64, havia na Câmara Municipal de Londrina uma norma que proibia o vereador de entrar no recinto de camisa vermelha. Porque era a cor do comunismo. Uma pestilência mais temida na época do que a lepra e a tuberculose. E não sem razão, pois os perversos comunistas tinham a mania de jogar criancinhas para o alto e espetá-las com um facão. Tinha gente que garantia haver visto.
Em pleno período ditatorial visitou Londrina o embaixador da Rússia. Fui fazer a cobertura do acontecimento. De noite, eu me lembro, levaram o homem para a zona do meretrício, como era costume com as autoridades e outros visitantes ilustres, ou nem tanto. Homens, naturalmente. A zona não era propriamente aquela coisa feia que alguém possa imaginar. Era antes um boulevard ocupando o quadrilátero inteiro de um quarteirão, povoado de mulheres jovens e bonitas, muitas luzes e cores cintilantes. O embaixador extasiou-se, e a gente pensava que comunista não era dessas coisas.
Comunista, naqueles dias sombrios do regime, era muito perigoso. Se você tinha duas fazendas, ele lhe tomava uma. Vinha outro e tomava a metade desta, e assim sucessivamente, até que cada um ficava com um terreninho que mal cabia uma casinha popular. Mas, como eu dizendo, a primeira coisa que fizeram com o embaixador quando ele desembarcou no aeroporto foi afastar as criancinhas e pedir-lhe, discretamente, que entregasse o facão. Por medida de segurança.
E sucederam-se os eventos. Ele foi recebido pelas autoridades civis, militares e eclesiásticas. E eu observando aquele comunista. Para falar a verdade eu nunca tinha visto um. Estava intrigado com a Polícia Federal, que não o prendia. Pois ele era um comunista confesso. Por menos que isto prenderam, torturaram e mataram tanta gente!
Numa das solenidades, ele discursou. E todos o aplaudiram. O prefeito, o comandante militar, o bispo. Fiquei encucado. Como podiam aquelas pessoas aplaudir um comunista?! Porque eram aquelas mesmas autoridades que nos doutrinavam e advertiam para o perigo vermelho! Eu mesmo me benzi várias vezes, diante do homem.
O embaixador tinha vindo a Londrina para aquele ensaio diplomático que antecede os grandes negócios, eis que os russos queriam comprar e beber o nosso café solúvel. Aí escrevi uma crônica com a patética conclusão: as autoridades civis e militares e os grandes empresários linha dura, temerosos de os comunistas sedentos se apossarem do capital e dividi-lo em partes, não eram propriamente contra os comunistas. Eles não gostavam era de comunistas sem dinheiro!

WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA

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