Foi uma bela ''montée de marches'', a da abertura de gala do 61º Festival de Cannes. Ainda não muitas celebridades, mas as que subiram a escadaria de veludo que leva ao interior do Grand Theatre Louis Lumière, altar-mor da celebração da maior mostra de cinema do planeta, foram suficientes como aquecimento para o que virá. Nos próximos dez dias Cannes é uma festa, e não Paris.
Depois de uma coletiva morna e desinteressada na tarde do primeiro dia, o presidente do júri, Sean Pean, falou à noite na cerimônia de abertura e voltou a ser o engajado de sempre, afirmando que o julgamento dele com certeza vai passar pelo recente terremoto na China, bem como pela situação da Birmânia: ''O realizador que ganhar a Palma de Ouro deve se revelar uma pessoa consciente do mundo que o cerca.''
No segundo dia da competição, logo cedo o argentino Pablo Trapero fez a sua parte e entregou uma bela fatura com ''Leonera'' (na tradução, algo assim como cova de leões) drama penitenciário centrado no universo carcerário feminino. O personagem principal é Julia, 26 anos, grávida de alguns meses e envolvida num nebuloso caso de assassinato em que a vítima é seu marido, e ela e o amante de ambos são os únicos suspeitos.
A moça é presa, a criança nasce no cárcere. A mãe, já condenada, poderá ficar com o garoto, Thomas, até que ele tenha quatro anos. A mãe dela volta de Paris e leva o menino. Julia fará o que for preciso para recuperar o filho. Quarto longa de Trapero (''Mundo Grua'', ''El Bonaerense'' e ''Família Rodante''), este recorte que mistura tratamento sociológico e retrato existencial resulta muito eficiente. E merece os aplausos que recebeu na sessão da crítica.
É outra bem sucedida incursão do diretor ao encontro das inesperadas direções que as relações entre seus personagens podem tomar, sempre diferentes daquelas desenhadas no inicio da trama. Martina Guzman, produtora, atriz e também mulher de Trapero, encarna uma Julia que cumpre com bravura seu destino em busca da dignidade perdida. O Brasil tem parcela de responsabilidade neste êxito.
Também exibido ontem na competição, ''Valse With Bashir'' é simultaneamente documentário político e autobiográfico. ''É acima de tudo uma história muito pessoal'', confessou o diretor Ari Folman na coletiva de imprensa. O israelense, que aos 17 anos ingressou no exército e lutou na primeira guerra do Líbano, ficou profundamente marcado pelo conflito. Especialmente pelos massacres de Sabra e Chatila, por conta dos falangistas cristãos. Suas lembranças traumáticas daquele período ele busca exorcizar agora, e fez deste filme formalmente instigante, mas com excessos de narrativa verbal, o seu momento de terapia.
Ontem foi dia de playground na Croisette - a avenida beira-mar que abriga o Palais des Festivals. Sete anos depois de ''Shrek'' fazer história como a primeira animação a competir em Cannes, a mesma DreamWorks marcou presença com a première mundial de ''Kung Fu Panda'', delicioso petisco e que o bom senso da curadoria deixou como evento especial fora de concurso.
Filme e personagem-título podem não ter o mesmo carisma da história do ogro verde, mas é curtição em alto astral na mesma medida, um festim até para olhos habituados aos mais recentes gadgets da tecnologia computadorizada.
E a festa animada prosseguiu após a projeção do desenho, só que em carne e osso. Mais carne inclusive, já que a dubladora do personagem Tigresa, Angelina Jolie, está grávida. E de gêmeos, conforme informaram todas as Caras do mundo, inclusive as européias. Jack Black, voz e perfil tão arredondado como o de Po, o Panda, e mais Dustin Hoffman e Lucy Liu também estiveram na mesa da sufocante coletiva de imprensa, ao lado dos diretores John Stevenson e Mark Osborne.
Mas cá entre nós, e que ninguém saiba, além de todas as mídias de todos os continentes: aqui só se fala até agora da ressurreição de Indiana Jones, que fará sua primeira aparição planetária neste domingo, uma da tarde, horário francês (veja outras informações sobre a estréia do filme em Cannes na edição da Folha 2 de domingo).

* O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Cannes

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