Essencialmente brasileiro
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sábado, 18 de abril de 2009
Luiz Fernando Vianna<br> Folhapress 
Há canções, como ''Sem Cais'' e ''Por Quem?'', em que o samba não aparece, mas Caetano Veloso garante que o gênero central da música popular brasileira é a base de todas as faixas de seu novo disco, ''Zii e Zie'' - um título em italiano (significando ''tios e tias'') para aproximar de São Paulo um CD de paisagens cariocas, diz.
Foi experimentando variadas batidas de samba que a maioria das novas composições surgiu. Ao serem trabalhadas com a bandaCê (Pedro Sá, Ricardo Dias Gomes e Marcelo Callado, que se uniram a Caetano para fazer ''Cê'', o disco anterior), as canções ganharam outras camadas, roqueiras em especial. Mas continuaram essencialmente brasileiras, na visão do autor.
''Existe uma tendência brasileira de considerar tudo o que o Brasil já encorpou como desprezível. Eu não posso compartilhar disso, porque acho suicida. Só não é suicida porque é um equívoco. Quem crê que está fazendo isso nunca está realmente fazendo isso. Você não pode livrar-se de si mesmo, não pode simplesmente decidir que não é brasileiro'', afirma ele.
O novo álbum foi fermentado em shows que Caetano fez no ano passado, no Rio, e que batizou de ''Obra em Progresso''. Ao constatar que seria um disco assentado sobre batidas de samba, decidiu regravar duas músicas que estão em ''Clementina de Jesus'' (1976). ''Quando eu penso em samba, esse disco tem um lugar central na minha mente'', diz.
Mas ''Incompatibilidade de Gênios'' (João Bosco/Aldir Blanc) e ''Ingenuidade'' (Serafim Adriano) ganharam registros à moda ''Cê'', com guitarras fortes. A primeira teve duas versões, e a que está no disco (a versão dois) foi escolhida em votação no blog de Caetano (www.obraem progresso.com.br, onde podem ser ouvidas quase todas as músicas de ''Zii e Zie'' ao vivo).
Em ''Lapa'' e no material de divulgação do álbum, Caetano saúda a ''era Fernando Henrique/ Lula''. Embora ainda seja crítico das reeleições, diz que ''deu para não ser ruim oito anos de cada''. ''Há milhões de razões para reclamar, mas ainda assim o resultado final é muito mais de coisas aproveitáveis do que de frustrações'', afirma.
Antes de Barack Obama ser eleito, Caetano fez ''A Base de Guantánamo'', assinalando o simbolismo de os EUA violarem os direitos humanos em solo cubano. Agora, com Obama começando a desmontar a base e a reduzir as restrições na relação com Cuba, a música se arrisca à caduquice.
Caetano ainda relativiza a rapidez com que várias canções foram criadas, nascidas como novidades para ''Obra em Progresso''. ''Vou ser sincero: todas as vezes eu componho assim. Fico com impaciência de continuar trabalhando até passar pelo meu crivo crítico. Deixo a canção precária, defeituosa e apresento. Se fosse botar meu crivo crítico, não ia ter nenhuma dessas músicas. Ou, então, eu ia fazer canções realmente perfeitas, aos meus olhos. O Chico eu acho que faz'', diz.


