ESSENCIAL - A dança e a subversão do equilíbrio
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Francismar Lemes<br> De Umuarama para Folha 2 
Durante uma semana a III Mostra
de Dança Contemporânea Unipar reúne 80 bailarinos que, além da apresentação de espetáculos, ministram oficinas. A Focus Cia de Dança, do Rio de Janeiro, trouxe uma coreografia inspirada no Pequeno Príncipe e a mineira Suspensa, uma montagem
que desafia o equilíbrio
O essencial é visível somente ao coração não se revelando facilmente ao olhar. Para conseguir enxergar é preciso estar disponível, como os bailarinos do espetáculo que a Focus Cia de Dança, do Rio de Janeiro (RJ) estréia hoje, no Teatro Municipal de Toledo, dentro da programação da III Mostra de Dança Contemporânea Unipar, que também está sendo realizado em Umuarama.
''B612 - O essencial é invisível aos olhos'' é uma coreografia em que o público também precisa estar disponível para ter um encontro com os personagens do clássico ''Pequeno Príncipe'', de Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944). Uma experiência que os moradores das duas cidades do Noroeste paranaense, distantes de uma programação cultural mais intensa, alcançarão através do mundo de um dos personagens mais sonhadores da literatura universal - universo que se abre à frente dos espectadores na maratona de uma semana de dança.
A montagem, com direção de Alex Neoral, coreógrafo que por seis anos fez parte da companhia de Deborah Colker, será reapresentada amanhã, às 20h, no Teatro Neiva Pavan Machado Garcia, em Umuarama.
Por essa fenda, que permite a imaginação entrar, cabendo também os movimentos do elenco da Focus, passam ainda o coletivo e o individual presentes na história clássica. ''Falamos através dos movimentos dos bailarinos, como é estar em um grupo e ao mesmo tempo sozinho numa busca pelo outro'', destaca Alex Neoral, sobre esse mundo de metáforas. Dessa plataforma, os personagens de Saint-Exupéry vão aparecendo nos movimentos de uma coreografia de nuances. ''Não gosto de trabalhar com velocidades, jogando com dinâmicas de movimento'', completa Neoral.
Nesse ritmo, a rosa do ''Pequeno Príncipe'' não tem a mesma velocidade da raposa e nem o contador de estrelas, a da cobra. Muito menos o coração e os olhos dos espectadores .
Criada em 1997, a Focus está na quinta montagem, apresentando também na mostra de Umuarama ''Outro Olhar''. A coreografia estreou ontem, com reapresentação hoje, ao meio-dia, na Praça Willy Barth, em Toledo. Um espetáculo que não tem paredes numa relação direta com o público. Cada pessoa acaba fazendo a sua interpretação do que assiste em cena.
''A coreografia fala sobre ocupar o espaço do outro, tomar o lugar do outro'', comenta Neoral, que ministrou uma oficina em que abriu os bastidores da preparação do próprio elenco, acrescentando um pouco de improvisação.
Belo Horizonte (MG) traz outra atração para a mostra com a Companhia Suspensa, que faz duas apresentações de ''Pouco Acima''. Ontem, além do espetáculo em que o elenco subverte a ordem do equilíbrio e do próprio corpo, uma oficina esquadrinhou os limites da ação corporal.
Com uma longa pesquisa de quatro anos, a companhia montou o espetáculo sob a direção de Ana Virgínia Guimarães e Sérgio Penna. ''A gente partiu de coisas que já fazia. Entre nós têm pessoas que começaram com educação física, circo, jornalismo e balé clássico. Com esse grupo de pessoas procuramos uma forma mais livre de movimentação, que desse uma leitura dramática'', afirma Lourenço Marques, integrante do elenco que, juntamente com Guilherme Morais, ministrou a oficina.
A montagem não tem uma narrativa linear, utilizando uma estrutura metálica para que os intérpretes construam caminhos com cordas e madeiras, chegando ao essencial: a sensibilidade do público, que assiste o próprio equilíbrio em jogo no ar com os bailarinos.
O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Dança


