‘‘Esse não é um disco para museu’’
Para chegar ao repertório final, Batatinha precisou fazer um auto-inventário de sua obra
ReproduçãoBatatinha, assim se crê, deixou cerca de 150 composições. Nem ele sabia a quantidade certa de sua produção. ‘‘Ele não tinha controle sobre suas músicas’’- recorda-se Paquito. O primeiro passo, desde que o projeto de gravação do CD foi mencionado, foi reunir Batatinha para que, numa gravação caseira, espremesse a memória e fizesse um inventário de suas obras. Em três sessões, os produtores chegaram a 70 canções, que Batatainha cantou batucando numa caixa de fósforos. Por ele, só gravaria músicas inéditas.
Prevaleceram os argumentos dos produtores - era preciso regravar também algumas de suas pérolas. ‘‘O critério de escolha das músicas foi que se registrassem canções que melhor o representassem esteticamente’’- conta Paquito. Daí que ‘‘Diplomacia’’ sai bem equilibrado com oito faixas conhecidas e outras oito praticamente inéditas (entre elas ‘‘Conselheiro’’, última composição dele em parceria com Paulo César Pinheiro). Entre as consagradas, pelo menos uma ficou de fora: ‘‘O Circo’’ (gravado por Bethânia em 72). ‘‘Essa não entrou por um motivo simples: a gravação de Bethânia, para mim, é definitiva’’- diz Paquito.
Músicos à postos, ilustres convidados empenhados, Batatinha no estúdio. O projeto finalmente saía do papel. E do papel também saiu uma bonita ilustração de Carybé, feita a pedido de Batatinha, que se transformou na capa do CD. Mas o homenageado morreu antes que o disco chegasse às lojas. Entretanto, ‘‘Diplomacia’’, o quarto disco de Batatinha (o primeiro foi gravado em 73 e o penúltimo em 94) aí está. ‘‘Eu me sinto orgulhoso por ter feito isso ao Batatinha. O grande prazer é saber que ele estará eternizado’’- diz Paquito. ‘‘O disco de Batatinha não foi feito para museu. A intenção é dizer: ó, gente a música dele está muito viva’’- complementa.
Segundo Paquito, o disco está tendo boa aceitação. E olha que não é tarefa das mais fáceis colocar um produto forte numa época em que os grandes compradores de disco da MPB parecem escolher CDs mais pelo molejo que prometem do que pela emoção. ‘‘Hoje é insuportável ouvir rádio na Bahia. É muita merda jogada. É claro que o axé tem legitimidade mas a exploração comercial ficou muito grande’’- comenta Paquito. ‘‘Isso tem que mudar porque pode dar a impressão de que a música baiana atual é rasteira e que, portanto, Batatinha é coisa de elite’’- conclui. (A.M.J.)

mockup