Essa tal doença chamada leitura
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quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Rafael Urban<br> Equipe da Folha 
Descoberta a hepatite A, Mário Sérgio Cortella, então com sete anos, teve de passar quatro meses, imóvel, em sua cama, na casa em que morava na Rua Belo Horizonte, em Londrina. Logo, as revistas, livros e jornais que tinha em casa não eram suficientes para o seu ritmo de leitura, passatempo que dividia com participações, por telefone, em programas de trívia nas rádios - a TV Coroados, a primeira da cidade, só chegaria três anos mais tarde, em 1963. ''Comecei lendo Monteiro Lobato e a FOLHA DE LONDRINA. E foi assim que aprendi a ler.''
O hoje escritor, que deixou a cidade de origem aos 14 anos, para viver em São Paulo, ainda teve a ajuda dos vizinhos, que colaboravam com livros. Assim, aos sete anos, leu Dostoiévski e Stendhal. ''Mesmo sem entender coisa alguma que diziam aquelas obras, todo aquele universo me fascinava.'' Exatamente esse fascínio afetivo que envolve a leitura foi o tema que cercou o debate realizado no último sábado, em São Paulo, entre Cortella, o escritor gaúcho Moacyr Scliar e o ator e poeta Antonio Calloni, mediados por Ricardo Soares, na 20 Bienal Internacional do Livro, que segue até domingo.
Para a proposta do debate, ''Ler ou não ler - eis a questão'', os três foram unânimes ao concordar que não há opção a não ser ler. Moacyr Scliar contou que tem literatura até na carteira de identidade: seu prenome foi uma homenagem de sua mãe à personagem de José de Alencar. ''Minha mãe é a pessoa que dizia: comida pode faltar, livros não.'' O gaúcho lembrou de uma pesquisa recente que apontou a figura materna como a grande responsável pela incentivo à leitura, seguida da escola e da figura do pai, que amargou um terceiro lugar. ''E não é a obrigação que faz o leitor, mas a aproximação afetiva dos pais e da escola'', comentou recordando da época de estudante, quando, ao final do período letivo, seus colegas de classe iam até a praça e faziam uma enorme fogueira, queimando os livros. ''Mas, felizmente, o ensino de literatura mudou neste país. Não se carrega mais a idéia de se ler apenas os clássicos, de que quanto mais enterrado estiver o autor ele é mais importante. Os professores estão mais criativos'', conclui o médico e escritor gaúcho.
O escritor-ator Calloni continuou o debate citando o filho, um pequeno mas ávido leitor, para quem sempre inventou histórias. ''Percebo uma evolução muito clara em sua relação com o mundo. É para isso que deve servir a leitura. Ajuda a namorar melhor, a saborear um prato melhor, enfim, viver melhor a partir do desenvolvimento da sensibilidade.'' O londrinense Cortella abriu a sua fala introdutória citando uma frase de Dorival Caymmi, ''É doce morrer no mar'', em uma homenagem ao compositor falecido na manhã de sábado. Ao falar sobre a temática, lembrou do epitáfio do túmulo que Mario Quintana pediu para deixar gravada em sua lápide: ''Eu não estou aqui.'' ''É justamente o que eu queria colocar na minha. Agora me resta escrever 'Nem eu''', brincou.
Cortella se identificou como VIP: Vindo do Interior do Paraná. De Londrina, guarda lembranças prazerosas e hoje vive em Higienópolis, bairro de São Paulo, um nome que o faz recordar da avenida de mesmo nome na cidade paranaense. ''Na rua onde moro hoje, a Maranhão, tem um pé de café. Sempre quando passo por ele, lembro do cheiro da terra molhada. Minha esposa já sabe: é neste pé que vai deixar as minhas cinzas.''
Com um raro bom humor, o escritor comentou que quando um leitor tem de perguntar ao autor o que este quer dizer, um dos dois é burro. ''O João Ubaldo Ribeiro sempre comenta que são três mil escritores no Brasil e que é por isso que as tiragens têm três mil exemplares. Só escrevemos para nós mesmos e isso é cansativo.'' Pensando nisso, diz que uma de suas maiores preocupações é imaginar como o leitor vai receber o que escreve. A lembrança que tem das férias escolares é a da divisão que teve de fazer quando foi obrigado pela professora a ler Eça de Queiroz. ''Dava quatro páginas por dia das férias. Desse jeito, ninguém vai querer ler.'' Outra coisa que o assusta são os cursos de leitura dinâmica. ''Leitura é como um alimento, necessariamente tem de ser digerido aos poucos. Vocês já viram curso de alimentação dinâmica?'', brincou, em meio a risadas da platéia, o autor que tem uma relação ''de fígado'' com os livros. ''A leitura foi uma doença que me levou aos sete anos e da qual nunca me curei.''


