Essa guerra não é brincadeira
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segunda-feira, 31 de março de 2003
Alexandre Horner<br> Especial para a Folha 
''Eu sonhei três vezes que o presidente Bush estava jogando bombas inteligentes na cidade e muita gente estava morrendo aqui. Não! Eu chorei! Tenho medo da guerra''. O pesadelo vivido pelo menino João Gabriel Arruda, 5 anos, aluno da pré-escola do Colégio Marista, de Londrina, revela como uma guerra travada tão longe do Brasil tem impressionado as crianças ao redor do mundo.
Como o envolvimento das crianças com o mundo real se torna cada vez mais precoce, os pequenos não conseguem ficar impunes. Vive-se um cenário de violência plena e constante mostrado pelas telinhas em tempo real. ''Talvez antes houvesse aquela mediação proporcionada pelos pais e pela própria cultura, mas hoje está tudo muito exposto'', diz a psicóloga clínica Rosana Conte.
Foi-se o tempo em que as fantasias tradicionais da maldade representadas pela bruxa má, cuca ou bicho-papão dominavam o imaginário infantil. O que era fruto da imaginação, alimentada por lendas contadas pelos mais velhos, deu lugar a medos mais concretos. ''Eu não gosto mais de assistir estas coisas na TV, depois eu sonho com isso à noite'', conta Maria Elisa Danelon, 7 anos, da 2 série do Colégio Seta.
É certo que as cenas cada vez mais realistas da TV, da Internet, e os jogos e brinquedos violentos confundem cada vez mais a cabeça da criançada. ''Não tenho medo de guerra mas pode cair um bomba aqui'', arrisca Gabriel Marila Lopes, 8 anos, da escola municipal Norman Prochet. Mas é um erro acreditar que elas não entendem pelo menos um pouco do que acontece. Na cabecinha delas, a reação se manifesta em sentimentos parecidos com o de qualquer adulto.
Para Heitor Calux Mendonça, 7 anos, que descobriu um game de guerra no computador, o ''bicho papão'' ganhou vida na TV. Colega de Maria Elisa na 2 série, ele sabe que o noticiário não é ''de mentirinha''. ''Eu não gosto de abrir uma porta do castelo no jogo porque daí sai um monstro. Esta guerra não é boa porque tem muita morte'', confessa Heitor, para quem jogo de guerra deixou de ser bom.
Os relatos que os pequenos fazem da violência explícita, tanto lá como cá, surpreendem pela crueza. Como muitos de seus colegas, Gabriel Lopes, conta com simplicidade o que vê: ''No vídeo game, quando você acerta a cabeça do homem, aparece a cabeça rachada cheia de sangue''. Leonardo de Oliveira, 7 anos, também do Seta, não quer mais saber de vídeo game. ''Agora acho o jogo chato, porque as pessoas ficam morrendo. É a mesma coisa lá no Iraque''.
A consciência para a dor que não é ''de mentirinha'' também se torna precoce. Insegurança e ansiedade aparecem juntas com sentimentos de pesar e solidariedade. ''Eu fico vendo a TV para saber o que está acontecendo com as pessoas. Fico preocupada e triste, com dó das crianças que estão morrendo'', desabafa Thatyana Volpato, 7 anos, que faz coro contra a guerra junto com os colegas.
''São medos reforçados pela violência nossa de cada dia'', diz a psicóloga Rosana Conte. ''Aqui no Brasil não tem guerra mas tem muitos ladrões, fico com medo'', confirma Thatyana. ''Por isso, até a fantasia do brincar muitas vezes acaba caindo mais cedo numa desilusão'', completa a psicóloga.


