Estamos no penúltimo dia da caminhada. Faltam apenas 25 km para Águas de São Pedro e o grupo está reunido em volta de uma fogueira. Após algumas orações, cada um fala o que pensa ou pensou da empreitada. A sensação unânime é a de alma lavada, de reflexões e decisões para vida.
``Não é um trekking comum. A influência de Santiago traz à tona um espírito de sinergia. Ao mesmo tempo em que temos tempo para uma imersão espiritual, acabamos ficando amigos. Essa é a magia``, diz a professora aposentada Rosemary Graziato, de 50 anos, que já fez a peregrinação espanhola. Ela estava no grupo de 26 pessoas que, em agosto, cumpriu o Caminho do Sol.
A essa altura os pés estão um caco. Bolhas e mais bolhas atormentam os caminhantes. Quem alivia um pouco essa dor é a decoradora Kátia Esteves, de 50 anos, 4 mil quilômetros rodados a pé, três Caminhos de Santiago nas costas. Kátia emendava o seu terceiro Caminho do Sol seguido, cuidando dos pés dos viajantes.
Para ela, andar é antes de tudo uma lição de fé: ``Quando fui para Compostela pela primeira vez tinha recém saído da quimioterapia e fui aconselhada por meu médico a não ir. Rezei o caminho inteiro e recebi a cura. Desde esse dia, devoto meus passos à solidariedade.``
Segundo Kátia, quando se caminha, esquece-se de bens materiais. ``Cada dia você olha para sua mochila e vê que poderia ser menor.`` Para quem pensa que o Caminho do Sol é dureza, ela avisa: ``É 80% cabeça e 20% físico. Todos podem conseguir.``
Na manhã seguinte, antes de o dia nascer, o grupo parte. ``A mochila já é parte do corpo``, diz o empresário Kenji Fukuyama, de 69 anos. Com a disposição de menino, ele conta: ``Caminhar me faz sentir vivo. Descobri isso em Compostela, há oito anos, com minha mulher.``
Após andar mais 25 quilômetros sob um sol escaldante, entra na cidade de Águas de São Pedro cantando. Lá está a estátua de São Tiago. O momento é de muita emoção. Todos se ajoelham e rezam. Muitos choram de emoção.
Pergunto ao líder do grupo, Edson Sardinha, o porquê de tanto choro. A resposta: ``As pessoas voltam o olhar para dentro. Cai a máscara social. Aqui todos são o que são. Porque ao caminhar você medita, ora. Os valores mudam. A gente percebe que não há espaço para vaidade. Nos tornamos mais humanos. É comum ver as pessoas deixando objetos para trás, se desapegando de bens materiais. A caminhada toca na alma.``

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