Espírito de colmeia
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Ela é uma das revistas mais comentadas e estudadas da história da imprensa brasileira. Deixou saudade em milhares de leitores. Mesmo tendo existido há quase 50 anos, continua inspirando novas gerações de jornalistas.
A revista "Realidade" representa um divisor de águas na imprensa nacional. Formada apenas por grandes reportagens, chegou a vender quase 500 mil exemplares em banca. Um grupo de jovens jornalistas apostou numa ideia que pouca gente acreditava que poderia dar certo. Desejavam fazer, com espírito de colmeia, uma revista que gostariam de ler. E deu certo.
Uma ótima oportunidade para conhecer a história da "Realidade" e seus bastidores está no livro "Realidade História de Uma Revista Que Virou Lenda", que acaba de ser lançado pela editora Insular. O autor, o jornalista paulista Mylton Severiano, atuou na revista desde seu primeiro número, em 1966, e deixou a redação juntamente com toda a equipe em 1968, dois meses antes de a ditadura militar instaurar o AI5. Para escrever o livro, entrevistou praticamente todos envolvidos com a "Realidade" em sua época de ouro. Contou também com os diários de bastidores do mentor intelectual da publicação, o jornalista Paulo Patarra.
Uma das curiosidades apresentadas por Severiano é de que nenhum membro da equipe de "Realidade" conhecia o "New Journalism" que no mesmo período (década de 60), começava a revolucionar a imprensa norte-americana. Com muitos elementos em comum, as duas experiências teriam nascido de maneira genuína, simultaneamente.
"Realidade História de Uma Revista Que Virou Lenda" será lançado em Londrina no sábado a partir das 18 horas no Restaurante Dona Menina. Na ocasião Mylton Severiano também estará apresentando músicas de seu primeiro CD que está sendo gravado em Londrina. A seguir Severiano fala sobre a experiência de Realidade.
Por que a "Realidade" desperta interesse e saudade até hoje?
Não se faz mais reportagem, creme do creme dentro do gênero literário "Jornalismo", a modalidade que exige uma pauta quente, um ou uma repórter sensível, humanista, que escreva bem e sem firulas, enxuto, e nos transporte para aquela realidade com a força da ficção, nos ajudando a entender melhor o mundo com vistas a querer um mundo melhor, eis por que os aspirantes a jornalistas sentem saudade da revista que nem tiveram oportunidade de conhecer.
Existiu algum elemento determinante, ou uma confluência de fatores, para que a revista se tornasse um sucesso editorial?
Meus entrevistados citaram confluência de inúmeros fatores: um empresário maluco que apostou todas as fichas num bando de malucos, liderados pelo maluco do Paulo Patarra, e dentro de uma ditadura militar que afiava as garras, mas ainda não tinha acumulado poderes totais para usá-las, e no contexto mundial de efervescência que nos deu os Beatles, as lutas contra a Guerra do Vietnã, o maio de 1968 e, aqui, até o Tropicalismo.
A "Realidade" é considerada um divisor de águas na imprensa brasileira. O que mudou nessas quase cinco décadas?
Mergulhou o país na ditadura e, meio de brinquedo, digo que ela não acabou, mas com fundo de verdade, porque os processos humanos não são estanques. O jornalismo ainda não teve sua Renascença, nem sequer descobriu o que qualquer criança de sete anos já sacou: o caminho é a blogosfera.
Você acredita que uma revista de reportagem nos molde da "Realidade", baseada no jornalismo romântico, seria viável nos dias atuais?
Não hifenizemos o jornalismo - aprendi essa outro dia com uma acadêmica: jornalismo-investigativo, jornalismo-romântico, jornalismo-fofo. Acho viável, sim. Porque a humanidade não terá chances de sobrevivência caso acabe com o jornalismo. E jornalismo é, também e principalmente, reportagem.
Serviço:
"Realidade História de Uma revista Que Virou Lenda"
Autor Mylton Severiano
Editora Insular
Páginas 320
Quanto R$ 49
Lançamento em Londrina
Quando Amanhã (13), às 18h
Onde - Restaurante Dona Menina (R. Guararapes, 177)


