Espionagem (quase) à moda antiga
Pronto para distribuição no segundo semestre de 2001, ''A Identidade Bourne'' acabou ficando um bom tempo de quarentena por conta da morte do produtor executivo. O filme somente chegou às salas americanas em junho deste ano, e a partir de hoje está em lançamento brasileiro (veja a programação de cinema na página 2). A pergunta que não quer se calar: o adiamento deve ser atribuído a razões estritamentes cinematográficas ou teria sido uma das consequências do 11 de setembro, já que o filme mostra uma CIA trapalhona e homicida, reflexo de uma instituição em crise de credibilidade? Resposta complicada, sem dúvida. O produtor falecido era nada menos que Robert Ludlum, o consagrado autor de romances de espionagem, entre outros a trilogia iniciada em 1980 com ''A Identidade Bourne''. Vinte e dois anos depois, esta história a meio caminho entre John Le Carré e Ian Fleming chega adaptada ao cinema pelo (ex?) ''indie'' Doug Liman, realizador mais versado em comédias urbanas (''Swingers'') do que no ''thriller''.
De início, o argumento de resto inflado por liberalidades em relação ao texto literário original promete boa dose de suspense. Alguns pescadores italianos navegando próximos à Marselha avistam um homem agonizante nas águas revoltas do Mediterrâneo. Levado a bordo, descobrem que, além das balas nas costas, ele carrega na pele uma espécie de cápsula laser que projeta o número de uma conta bancária. Quando o ferido se recupera ele não se lembra de nada sobre si mesmo. Algumas habilidades, como o domínio de vários idiomas, vão sendo aos poucos recuperadas. Com algum dinheiro e roupas dados pelos pescadores, o homem sem nome e sem passado (Matt Damon) sai em busca de sua identidade. O que ele encontra no banco em Zurique não são indícios claros mas novas interrogações. E também a certeza de que é o alvo de algum assassino ou de algum grupo disposto a eliminá-lo. Agora com a ajuda de uma ociosa estudante alemã encontrada ao acaso (Franka Potente, a esbaforida ''Corre Lola Corre''), ele parte para Paris a fim de esclarecer o mistério de sua vida e principalmente para salvar a pele. Das margens do Sena ao interior da França, os dois fugitivos são implacavelmente perseguidos pela CIA, envolvida num complô para assassinar um ditador africano.
Parece haver alguma coisa agradavelmente errada com ''A Identidade Bourne''. Embora longe de ser um grande filme, é um thriller com neurônios e boa dose de sensibilidade que não se deixa abalar pelas exigências mercadológicas. Como ''Estrada para Perdição'', é também um filme de estúdio que pensa enquanto age. De modo geral, a ação está a serviço da trama, e não o contrário artes marciais incluídas. Trabalha-se aqui um dilema moral, que emerge quando Bourne descobre quem é de fato. Agora parte descartável da elite de assassinos estacionados em diversas grandes cidades do mundo, ele é marcado para morrer por seus próprios colegas quando deixa de cumprir uma missão. O diretor Doug Liman sabe o que é coesão narrativa escassa hoje em Hollywood e consegue materializar com destreza a sensação de paranóia que envolve o homem vindo de parte alguma e recém-chegado a um mundo que não lhe é absolutamente familiar. E o mérito aqui deve ser compartilhado com Matt Damon, melhor do que a encomenda.
Com trânsito intenso entre diversos cenários europeus e sua incursão por complexas redes de espionagem internacional, ''A Identidade Bourne'' convoca reminiscências de aventuras mais clássicas de James Bond, temperadas pelas zonas cinzentas de John Le Carré. Neste sentido, o filme potencializa uma espécie de revival e traz à memória aquela Hollywood que tratava este e outros gêneros com decência. O problema é que, se ninguém sabia muito bem que tipo de espionagem colocar na tela pós Guerra Fria, depois do 11 de setembro as coisas ficaram ainda mais delicadas.





