Espiar a vida dos outros (E A PRóPRIA)
Oscar de melhor filme estrangeiro em 2007 - para ficar apenas com o aval mais reconhecido e aceito pelo grande publico -, e ganhador de pelo menos outras três dezenas de prêmios internacionais, ''A Vida dos Outros'', filme alemão que marca a estréia do diretor Florian Henckel von Donnersmarck, está no circuito local a partir de hoje (veja a programação de cinema na página 2).
Imagine um personagem apagado, taciturno, um homem dedicado por completo a uma tarefa. Alguém sem vida pessoal, sem vínculos estreitos ou ambições, a não ser com relação ao trabalho que executa meticulosamente. Nada mais distante do arquétipo do agente secreto glamouroso. Estamos na Berlim Oriental, capital da República Democrática Alemã, 1984, uns cinco anos antes da queda do Muro. Gerd Wiesler (Ulrich Muhe) é professor e funcionário da Stasi, a implacável polícia secreta do regime comunista que controla as atividades de todos os habitantes. Ele é um dos quase 100 mil, a maioria espiões, voluntários ou não, que formam uma rede que faz circular informações sobre o dia-a-dia de qualquer pessoa, em meio a um estado de permanente suspeita.
Assistindo a um espetáculo escrito pelo prestigioso dramaturgo Georg Dreyman (Sebastian Koch) e interpretado pela mulher dele, a reconhecida e bela atriz Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck), o diligente oficial da Stasi sugere a seu chefe que o casal passe a ser vigiado por causa de possível ''desvio'' ideológico e oposição ao regime. Correm tempos difíceis para a classe artística que tenta contrariar as leis vigentes. E o próprio Wiesler se encarrega pessoalmente de fechar o cerco aos dois ''suspeitos''.
Apoiado por sofisticado sistema de escuta que não deixa sem registro nenhum momento da intimidade de Georg e Christa, o agente vai aos poucos se envolvendo na ''vida dos outros''. E longe de descobrir a conduta opositora do dramaturgo, suas declarações, suas opiniões escritas, suas confabulações, Wiesler termina por revelar a si mesmo seu próprio mundo sensível, durante tanto tempo reprimido; o vazio de sua existência medíocre em contraposição às vidas que bisbilhota, vidas onde cabem o amor e o sofrimento, a rebelião e a arte. Mas este gesto de humanismo, esta pequena e na verdade grande concessão que ele deixa aflorar não será gratuita, mas o movimento inicial de uma grande tragédia da qual será ao mesmo tempo artífice e vítima juntamente com seus vigiados.
Talvez a maior virtude entre tantas que ''A Vida dos Outros'' oferece generosamente seja lançar mão de elementos essenciais da arte para falar de grandes temas. A preferência do cinema alemão contemporâneo pela sobriedade permite apreciar com enorme prazer uma narrativa impecável: a imagem narra, os gestos dos atores narram, tudo parece apenas sugerido e o espectador de repente se dá conta de que é espião do espião. Através apenas do gestual de Wiesler entra-se nos labirintos de seus gostos, seus desejos, seu desencanto.
Importante como pano de fundo é a denúncia dos regimes totalitários (não apenas os comunistas), onde o indivíduo é mero instrumento do Estado, onde a esfera privada não existe e o pensamento contestador é perseguido e punido.(C.E.L.J.)





