Zeca Corrêa LeiteCuritiba
Uma mulher cinquentona que passou a vida administrando a pensão deixada pelo pai como herança, vê a clientela da casa ir morrendo aos poucos. Solitária e desiludida, planeja suicidar-se, mas a presença inesperada de um forasteiro altera seu caminho. Assim é a peça ‘‘A Corda e a Cadeira’’, de Ivan Lovison, que inaugura hoje, às 21 horas, o auditório da Paulus Livraria, na Praça Rui Barbosa.
A montagem do grupo Rinoceronte traz à cena Ila Ribeiro e Ivan Lovison, nos papéis de Eleonora e Jean. O cenário é o mais essencial possível: uma corda e uma cadeira. ‘‘Nossa proposta é exatamente essa, um teatro verdadeiro, sem sofisticação’’, explica o autor, diretor e ator. Aos domingos, às 15h30, no mesmo local, os dois atores apresentam ‘‘Adriana Banana’’.
Ila Ribeiro tem uma história que se confunde um pouco com o destino de sua personagem, Eleonora. Embora jamais tenha pensado em suicídio, a morte chegou muito próximo dela, dez anos atrás, quando sofreu aneurisma cerebral. Foram localizados cinco pontos congestionados e realizadas duas cirurgias de altíssimo risco. Sobreviveu. Aí partiu para aquilo que julgava ser um sonho inalcançável: ser atriz.
A vontade de representar esteve em toda sua vida, desde os tempos em que morava no sítio. Eram 14 irmãos e ela sempre sonhadora, um tanto arredia. Quando a família mudou-se para Arapongas, teve seu primeiro contato com o teatro na escola. Ficou encantada e nos eventos cívicos ansiava para ser escolhida: queria declamar, fazer discursos. Atuou nas peças infantis ‘‘A Bruxinha que Era Boa’’ e ‘‘Vote em Mim, Dona Xandoca’’. Foi convidada para integrar o grupo de Nitis Jacon, mas os pais não permitiram. Aí acabou a carreira ainda nascente de Ilda.
A vida tomou outro rumo, foi trabalhar na Prefeitura de Arapongas e ali se aposentou há oito anos. Do aneurisma sofrido em 1989 não ficaram sequelas. ‘‘Acredito que depois dessa experiência passei para o outro lado’’, explica.
Ou seja, saiu da vala comum dos mortais que se prendem a miudezas e mergulham no sofrimento, sem perceber que há outros valores e conquistas realmente completos. ‘‘Alguma coisa despertou em mim, não sou mais a mesma. Hoje não me entrego mais a coisas pequenas. Se fui preservada e aqui estou, por que não ir em busca de algo que sempre quis?’’.
‘‘A Corda e a Cadeira’’ é um presente para ela, a personagem e a atriz são próximas uma da outra. ‘‘Somos parecidas. Ela é como eu, que se assumiu na vida. Eu sou assim e acho que a vida fica mais leve: à medida que você deixa de fugir e vai ao encontro do que está à sua frente, o problema desaparece e dá uma sensação ótima de leveza’’.
Aos 57 anos encara com otimismo a experiência teatral, embora confesse ter ‘‘algumas dificuldades’’. Mas não serão essas dificuldades que irão derrubá-la. Afinal, seu sonho está sendo realizado. ‘‘O que sonhei com 8, com 18 estou realizando com alguns dezoitos’’, brinca. ‘‘Isso prova que o tempo é a gente que faz’’.
‘‘A Corda e a Cadeira’’, texto e direção de Ivan Lovison. Com Ila Ribeiro e Ivan Lovison. Todos os sábados, às 21h e domingos às 19h, no auditório da Paulus Livraria, na Praça Rui Barbosa. Aos domingos, às 15h30, no mesmo local, os atores apresentam ‘‘Adriana Banana’’. Ingressos a R$ 7,00 e R$ 5,00 com bônus.

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