Espetáculo homenageia a divina Elisete Cardoso, no Rio
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segunda-feira, 03 de abril de 2000
Por Beatriz Coelho Silva 
Rio, 04 (AE) - A cantora Elisete Cardoso foi chamada de divina, enluarada, brasileiríssima e outros adjetivos elogiosos nos mais de 50 anos em que atuou nos palcos e rádios brasileiros. Às vésperas dos dez anos de sua morte (em maio de 1990, aos 70 anos incompletos), virou lenda e seus discos, parte deles relançada em CD, têm compradores fiéis que reviram lojas em busca de preciosidades.
Os muitos amigos que ela teve acharam que era pouco e se reuniram para produzir a série de shows "Divina - 80 anos de Elisete", que ocorre este mês no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Serão quatro espetáculos, um por semana, a partir de amanhã (05), cada um relembrando uma face de Elisete Cardoso como cantora e descobridora de talentos. Soraya Ravenle, Alaíde Costa, áurea Martins e Zezé Gonzaga cantarão seu repertório em espetáculos que terão direção-geral de Antônio de Bonis, o encenador do musical "Dolores", no ano passado. Na direção musical, o violonista e arranjador Maurício Carrilho, que praticamente estreou a acompanhando em shows (ele era da Camerata Carioca, com quem Elisete fez shows antológicos no fim dos anos 70), ficou seu amigo e fez arranjos para shows e discos.
"Elisete era uma cantora exigente com seus músicos, mas uma companheira formidável, que deixava o músico à vontade para fazer o que achasse melhor, até porque era muito versátil e o grupo que a acompanhasse podia ter as formações mais variadas, do violão solitário à orquestra sinfônica", lembra Carrilho. "Para ela, fiz desde os arranjos mais simples aos mais elaborados, que envolviam formações grandes e variadas, mas não vou tentar repeti-los nesses shows porque Elisete era única, ninguém canta como ela".
A produtora Ana Luísa Lima, que criou o projeto com assessoria de Sérgio Cabral, biógrafo de Elisete, concorda. "Chamei essas quatro cantoras porque ninguém hoje reúne suas qualidades e, com exceção de Soraya, que não a conheceu pessoalmente, todas eram amigas e conviveram muito com ela", explica Ana Luísa. "Cada uma delas tem uma personalidade musical diferente e, juntas, dão uma idéia de quem foi a Divina".
Em 50 anos de carreira, Elisete Cardoso cantou quase tudo o que houve de qualidade na música brasileira. Aos 16 anos, em 1936, foi descoberta por Jacó do Bandolim, que a levou para a Rádio Guanabara. Lá, ela conheceu Noel Rosa, então no auge da fama, que lhe desejou sucesso e deu uma música. Mas o sucesso não chegou aí. Demorou mais de dez anos, durante os quais ela trabalhou como vendedora de charutos, taxi-girl (moça que nos dancings servia de par na dança a homens desacompanhados) e no circo, ao lado de Grande Otelo, cantando "Boneca de Pixe", de Ari Barroso. Bossa nova - Sucesso mesmo só em 1951, com "Canção de Amor", de Chocolate e Elano de Paula, mas daí em diante vieram vários hits. Em 1958, resolveu gravar um disco com músicas de dois desconhecidos, o pianista Tom Jobim e o diplomata Vinícius de Morais, no qual estreava o violonista João Gilberto. O título era "Canção do Amor demais" e daí a bossa nova deslanchou.
Em 1965, começaria a moda de gravar sambistas populares como Cartola, Nelson Cavaquinho e Ismael Silva, a partir de seu disco "Elisete Sobe o Morro". Daí em diante, já consagrada, participou de shows e discos antológicos como o que fez com o Zimbo Trio e com a Camerata Carioca. Nos anos 80, suas músicas tocavam pouco no rádio, mas seus espetáculos lotavam, como em "Uma Rosa para Pixinguinha", que também virou disco.
"Era uma loucura", lembra Maurício Carrilho, que era músico de Elisete na época. "A gente se apresentava em casas lotadas, com gente saindo pelo ladrão e cambistas vendendo ingresso do lado de fora pelo triplo do preço, mas as músicas não tocavam no rádio". Nesses e noutros shows, Elisete se permitia ousadias que resultavam em polêmica.
A primeira vez foi nos anos 50, quando gravou a "Bachiana n.º 5" e a "Modinha", de Villa-Lobos, com orquestra sinfônica, a convite do maestro paulista Diogo Pacheco. Era a primeira vez que uma cantora popular invadia praias eruditas e, se o público amou, parte da crítica não perdoou a audácia da mestiça. Nos anos 70, o moralismo vigente criticou sua gravação do samba "Eu Bebo Sim", no qual ela simulava estar embriagada. Novo sucesso e mais críticas. "O engraçado é que ela detestava bebida", comenta Cabral. "Apenas de vez em quando, gostava de um licor".
Cada um dos quatro shows lembra uma das faces de Elisete. Na primeira semana, Soraya Ravenle e Flávio Bauraqui fazem "Boneca de Pixe", acompanhadas pelo regional formado por Maurício Carrilho, Pedro Amorim (bandolim), Luciana Rabello (cavaquinho) e Celsinho (percussão). Pixinguinha - "Canção do Amor demais" é o segundo espetáculo, entre os dias 12 e 16, com Alaíde Costa cantando acompanhada de Maurício, Leandro Braga (piano), Jorge Helder (baixo acústico) e Paulo Sérgio Santos (sopros). áurea Martin e o regional fazem o show da terceira semana, "Elisete Sobe o Morro", e a homenagem termina com Zezé Gonzaga cantando o repertório de "Uma Rosa para Pixinguinha", também acompanhada pelo regional.


