Espetáculo e mostra lembram Bispo do Rosário no Rio
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terça-feira, 22 de junho de 1999
Por Beatriz Coelho Silva 
Rio, 23 (AE) - Os 90 anos de nascimento e dez de morte de Bispo do Rosário vão ser lembrados a partir de amanhã (24), no Centro Cultural da Caixa, no Rio, com a exposição "Eu Preciso Destas Palavras. Escrita", com 50 trabalhos seus, e o espetáculo "Senhor dos Labirintos", do grupo sergipano Imbuaça. Até hoje se discute se Bispo, que passou metade da vida internado em hospitais psiquiátricos, era um artista, um marginal, um lunático ou as três coisas ao mesmo tempo. Tanto a exposição quanto a peça tentam mostrar que ele era tudo isso junto.
Bispo do Rosário foi descoberto no início dos anos 80, na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, no Rio, quando uma equipe de televisão ia fazer uma denúncia sobre as más condições dos internos. Rosário era um deles havia mais de 20 anos e, incentivado pela médica psiquiatra Nise da Silveira, que usa arte como terapia, traduzia seus delírios em objetos, capas, painéis e casacos onde escrevia longos textos ilustrados por figuras abstratas ou não. Logo seu talento foi reconhecido, embora ele recusasse o rótulo de artista, e seus trabalhos começaram a ser expostos com elogios da crítica especializada.
A mostra "Eu Preciso Destas Palavras. Escrita" não tenta contar a história do artista/louco, mas sim agrupar seus trabalhos por temas. São 50 peças enfocando a força de seu texto e sua relação com a imagem. "Não dá para saber se a palavra continua a imagem ou vice-versa", diz o curador da exposição, Jorge Gomes. "Não quis inserí-lo na história da arte porque ele não se considerava um artista nem se enquadrava em nenhum movimento". No entanto, há quem encontre relação entre seus trabalhos e a cultura de Sergipe, onde Bispo viveu até os 27 anos, quando chegou ao Rio como marinheiro e foi trabalhar como faxineiro da família Magalhães Leone.
É essa relação entre a vida e a arte de Bispo do Rosário que o grupo Imbuaça mostra na peça "Senhor dos Labirintos", de João Marcelino, calcado na biografia do mesmo nome, escrita por Luciana Hidalgo. O cenário é uma barca, que começa o espetáculo quase nua e termina enfeitada com objetos semelhantes aos criados por ele. A estréia foi no início do ano, em Jarabatuba, interior de Sergipe, financiada pelo Projeto Cena Aberta, um convênio dos Ministérios da Cultura e do Trabalho para formação de mão-de-obra.
A exposição e o espetáculo ficam em cartaz até sexta-feira e depois as peças voltam para o Museu Nise da Silveira, mantenedor do acervo. "Queremos que, além do prazer estético, o público possa compreender o universo de Bispo do Rosário pela exposição e pelo espetáculo", diz o diretor João Marcelino.


