As comemorações ufanistas relativas aos 500 anos de descoberta da América impulsionou o escritor e roteirista francês Jean-Claude CarriSre a escrever para a televisão francesa um telefilme retratando uma outra faceta da consolidação da Europa nas américas. CarriSre (autor dos roteiros ‘‘A Bela da Tarde’’, ‘‘A Insustentável Leveza do Ser’’, ‘‘Danton’’, ‘‘Brincando nos Campos do Senhor’’), escreveu ‘‘A Controvérsia de Valladolid’’.
Na versão teatral, ‘‘A Controvérsia’’ chegou aos palcos brasileiros pelas mãos do jornalista e diretor cinematográfico Pedro Bial. O texto foi apresentado num encontro entre a atriz Giulia Gam e Pedro Bial com CarriSre, na Copa de 1998. A misteriosa e contraditória ‘‘A Controvérsia’’ será apresentada hoje no Teatro Guaíra, às 21h30 e amanhã às 20 horas, na Mostra Contemporânea do FTC.
Bial convidou Paulo José para assumir a direção da peça e estendeu o convite para atuar, marcando o retorno do ator-diretor após um hiato de 10 anos. Ele faz um contemporizador emissário papal. ‘‘A Controvérsia’’ discute com eloquência se os ameríndios possuíam ou não alma. Como típica peça de tribunal, a defesa tem o missionário Bartolomeu de Las Casas (Matheus Nachtergaele), como um vulcão indignado com as condições dos índios escravizados. Las Casas se deparou com um adversário de peso, o teólogo Juan Ginés de Sepúlveda (Otávio Augusto), representante da alta hierarquia da Igreja, um verdadeiro aristotélico.
Nesse embate, a igreja ficou numa posição desconfortável. Las Casas, na verdade, relatou caso a caso as atrocidades sofridas pelos índios numa sessão com seis dias de duração. O missionário chegou nas Américas na segunda travessia de Colombo como autêntico colonizador. Ao assistir a uma palestra com um dominicano foi tocado e tornou-se missionário ao retornar à Europa.‘‘Essa foi a maneira política dele atuar. Era o canal da época’’, explicou o ator Matheus Nachtergaele, em Curitiba. Segundo o ator, Las Casas se valia das palavras de Cristo para evangelizar sem sangue.
Paulo José atesta que foram buscar referências diretas em fatos da atualidade para estudar historicamente a peça, como a invasão americana no Vietnã, o massacre ocorrido no Timor Leste. ‘‘É difícil não fazer ligações. O texto é de absoluta contemporaneidade’’, afirma Paulo José. ‘‘Ás vezes, temos uma vontade que eles (americanos) fossem embora, com suas nets, sitcom e cocas’’, satiriza Matheus sobre nossos atuais colonizadores. ‘‘Reconhecer os índios como irmãos era um impulso juvenil’’, justifica o ator, a respeito da escolha de um ator jovem para fazer Las Casas. Quando aconteceu o encontro realizado na cidade espanhola de Valladolid em 1550, o missionário se encontrava com mais de 70 anos. A discussão durou vários dias, obrigando CarriSre a concentrar toda a peleja em pouco mais de uma hora. Além da figura do emissário papal, foram inseridos no texto teatral três índios e um bufão. Na montagem brasileira, índios genuínos participam como atores. A convivência com os indígenas, muitas vezes, acontecia através do teatro. Las Casas, quando estava na Guatemala fez um auto da história da Bíblia em verso, no idioma indígena.
A solução para ‘‘A Controvérsia’’ liberou os índios do sistema escravagista, mas abriu os porões dos navios negreiros, porque logo a seguir deu-se início ao tráfico de negros africanos.
‘‘A Controvérsia’’, de Jean Claude CarriSre, direção de Paulo José, no Teatro Guaíra (Conselheiro Laurindo, s/n), hoje às 21h30 e amanhã 20 horas. Elenco: Paulo José, Matheus Nachtergaele, Otávio Augusto, Ivan Albuquerque, Adriano Garib, Silvia Nobre, Ydrish Tanzkaya, Rui Polanah, Breno Marroni.

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