Espetáculo discute o preconceito étnico
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sexta-feira, 30 de março de 2001
Francelino França De Curitiba 
As comemorações ufanistas relativas aos 500 anos de descoberta da América impulsionou o escritor e roteirista francês Jean-Claude CarriSre a escrever para a televisão francesa um telefilme retratando uma outra faceta da consolidação da Europa nas américas. CarriSre (autor dos roteiros A Bela da Tarde, A Insustentável Leveza do Ser, Danton, Brincando nos Campos do Senhor), escreveu A Controvérsia de Valladolid.
Na versão teatral, A Controvérsia chegou aos palcos brasileiros pelas mãos do jornalista e diretor cinematográfico Pedro Bial. O texto foi apresentado num encontro entre a atriz Giulia Gam e Pedro Bial com CarriSre, na Copa de 1998. A misteriosa e contraditória A Controvérsia será apresentada hoje no Teatro Guaíra, às 21h30 e amanhã às 20 horas, na Mostra Contemporânea do FTC.
Bial convidou Paulo José para assumir a direção da peça e estendeu o convite para atuar, marcando o retorno do ator-diretor após um hiato de 10 anos. Ele faz um contemporizador emissário papal. A Controvérsia discute com eloquência se os ameríndios possuíam ou não alma. Como típica peça de tribunal, a defesa tem o missionário Bartolomeu de Las Casas (Matheus Nachtergaele), como um vulcão indignado com as condições dos índios escravizados. Las Casas se deparou com um adversário de peso, o teólogo Juan Ginés de Sepúlveda (Otávio Augusto), representante da alta hierarquia da Igreja, um verdadeiro aristotélico.
Nesse embate, a igreja ficou numa posição desconfortável. Las Casas, na verdade, relatou caso a caso as atrocidades sofridas pelos índios numa sessão com seis dias de duração. O missionário chegou nas Américas na segunda travessia de Colombo como autêntico colonizador. Ao assistir a uma palestra com um dominicano foi tocado e tornou-se missionário ao retornar à Europa.Essa foi a maneira política dele atuar. Era o canal da época, explicou o ator Matheus Nachtergaele, em Curitiba. Segundo o ator, Las Casas se valia das palavras de Cristo para evangelizar sem sangue.
Paulo José atesta que foram buscar referências diretas em fatos da atualidade para estudar historicamente a peça, como a invasão americana no Vietnã, o massacre ocorrido no Timor Leste. É difícil não fazer ligações. O texto é de absoluta contemporaneidade, afirma Paulo José. Ás vezes, temos uma vontade que eles (americanos) fossem embora, com suas nets, sitcom e cocas, satiriza Matheus sobre nossos atuais colonizadores. Reconhecer os índios como irmãos era um impulso juvenil, justifica o ator, a respeito da escolha de um ator jovem para fazer Las Casas. Quando aconteceu o encontro realizado na cidade espanhola de Valladolid em 1550, o missionário se encontrava com mais de 70 anos. A discussão durou vários dias, obrigando CarriSre a concentrar toda a peleja em pouco mais de uma hora. Além da figura do emissário papal, foram inseridos no texto teatral três índios e um bufão. Na montagem brasileira, índios genuínos participam como atores. A convivência com os indígenas, muitas vezes, acontecia através do teatro. Las Casas, quando estava na Guatemala fez um auto da história da Bíblia em verso, no idioma indígena.
A solução para A Controvérsia liberou os índios do sistema escravagista, mas abriu os porões dos navios negreiros, porque logo a seguir deu-se início ao tráfico de negros africanos.
A Controvérsia, de Jean Claude CarriSre, direção de Paulo José, no Teatro Guaíra (Conselheiro Laurindo, s/n), hoje às 21h30 e amanhã 20 horas. Elenco: Paulo José, Matheus Nachtergaele, Otávio Augusto, Ivan Albuquerque, Adriano Garib, Silvia Nobre, Ydrish Tanzkaya, Rui Polanah, Breno Marroni.


