Washington Olivetto gritou e a apresentadora Glória Maria, que passava, foi até ele, que perguntou:
- Quando você vai? A galera toda já está lá. Você vai ficar só em Saint Tropez ou vai para Capes D'Antibes também?
- Não, vou para lá também.
- Vamos lá, você fica na minha casa. Meus filhos e minha mulher já estão lá.
- Eu vou, eu vou. Anota meu telefone e o e-mail para a gente combinar.
E foi assim, para VIPs que aparentam conhecer muito melhor as ruas de Capes D'Antibes do que as de Itaquera, que foi aberta a temporada do Cirque du Soleil, na quarta-feira, na tumultuada Vila Olímpia, com uma festa logo a seguir no terraço da Daslu. A temporada em São Paulo vai até 22 de outubro. No Rio, o circo fica de 3 de novembro a 3 de dezembro.
A noite de estréia era só para convidados. Na fileira de trás, estavam Sandy e sua mãe. Duas fileiras à frente, Adriane Galisteu e Roger. De vez em quando, a gente parecia que tinha sido transportado para a novela das oito: beliscando no bufê, estava o Cemil (Leopoldo Pacheco). Mais adiante, usufruindo de uma boa-vida digna da Bia Falcão, estava Dona Katina (Irene Ravache). Parecia um grande circo global: Fábio Assunção, Murilo Benício, Flávia Alessandra, Danielle Suzuki, gente de ''Malhação'', gente de ''Cobras & Lagartos''.
No meio de tudo isso, tinha o Cirque du Soleil. O que dizer do Cirque du Soleil?
Seus trapezistas, malabaristas, contorcionistas, todos são fantásticos, superatletas. O que fazem é sobre-humano, o que é a essência da natureza do circo - homens e mulheres que realizam, sem apelar a truques e superpoderes, aquilo que os mortais comuns nem sonhamos em fazer.
Não é absolutamente culpa do Cirque que, do cinema de ação à TV, do Faustão ao Raul Gil, dos stuntmen de Matrix aos engolidores de cobra da Praça da República, os mercadores do sobre-humano tenham vulgarizado esses limites. Todo mundo diz ''uau'', mas há um certo tédio no ar.
Também seria difícil dizer até onde o Cirque foi contaminado pelo clichê, mas quase tudo ali respinga clichê: as fantasias e os costumes, que ora invocam ''O Pequeno Príncipe'', ora Moebius, ora restos de um carnaval veneziano, ora a visualidade mais batida de Hollywood, como ''Duna'' e ''O Senhor dos Anéis'' (até um mascarado de capa e chapéu, como ''O Máskara'', está lá); a música, subproduto de Enya e Jean-Michel Jarre, que transforma os momentos mais solenes numa espécie de viagem ''new age'' com destino previsível.
Quase tudo no Cirque du Soleil é clichê, incluindo a platéia e suas reações. Mas o que é o circo, senão isso? Claro que espera-se muito mais de um circo ricamente subsidiado e mundialmente famoso do que do modesto Circo Piolim de lona remendada. Do poderoso circo que vende na ante-sala da grande tenda dezenas de produtos licenciados com sua marca, espera-se mais do que o velho truque do palhaço que escolhe alguém da platéia como vítima de suas gozações.
Mas esse truque é recorrente. O repórter sua frio enquanto o palhaço caminha perto de sua cadeira, mas quem dança é um senhor logo atrás. Todos riem porque escaparam, e o homem sorri amarelo porque não consegue desvencilhar-se do palhaço. Rola no chão como um cachorro amestrado, urra, range, dança. O repórter continua suando frio, mesmo após aparentemente ter escapado.
Aí o homem foge do palhaço, que o persegue. O apresentador Chico Pinheiro tenta salvar o homem e se dá mal, é sequestrado pelo palhaço. Mais risos, agora menos nervosos. Já em lugar seguro, o fugitivo respira aliviado: ''Eu devia cobrar cachê.''
Agora é a vez do herói Chico, que entrou na roda tentando resgatar a vítima. As cenas que se seguem sugerem uma curiosa vingança coletiva contra o sujeito que dá manchetes cabeludas nos jornais da Rede Globo. Exibe-se agora a fragilidade do âncora que, arrancado de sua telinha, é obrigado a duelar com o palhaço, rolar no chão enquanto tenta arrumar a gravata, rugir feito um leão e um gato. Saiu vivo, mas será que alguém sobrevive mesmo a isso?
No final de tudo, não houve frustração. A platéia saiu satisfeita para a festa na Daslu, em carrinhos motorizados. Ali, naquela margem do Rio Pinheiros que parece amaldiçoar as grandes fortunas (Edemar Cid Ferreira está preso, Eliana Tranchesi é processada), o grand monde de São Paulo reencontra os palhaços no elevador.
Nada demais, o de sempre: Prosecco, canapés, música ao vivo e DJs com percussionistas, e Emerson Fittipaldi desfilando suas velhas costeletas. O show tem que continuar.

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