Espetáculo 'Azira'i' atravessa os Brasis e chega a Londrina
Solo autobiográfico da atriz indígena Zahy Tentehar, ganhadora do Prêmio Shell, terá sessões na quinta e sexta-feira (31), no Teatro Mãe de Deus
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 28 de outubro de 2025
Solo autobiográfico da atriz indígena Zahy Tentehar, ganhadora do Prêmio Shell, terá sessões na quinta e sexta-feira (31), no Teatro Mãe de Deus

O espetáculo “Azira’i – Um Musical de Memórias” chega a Londrina em plena maturidade, completando dois anos de intensa circulação por palcos nacionais e internacionais. É um solo autobiográfico que rendeu o Prêmio Shell de Melhor Atriz a Zahy Tentehar, artivista do povo Tentehar-Guajajara, que deixou o Maranhão aos 19 anos para viver na Aldeia Maracanã, no Rio de Janeiro, onde iniciou a carreira artística e passou a transitar por várias linguagens.
Filha da primeira mulher pajé da reserva indígena de Cana Brava (MA), Zahy parte das memórias com a mãe para construir uma narrativa que emociona e inquieta. “Quando pensei em trazer essas memórias ao teatro, não foi para falar apenas dos meus sentimentos. Foi para dialogarmos com nossos reflexos enquanto sujeitos coletivos”, explica. “Gosto de nos ver, humanos, como espelhos. Nossas histórias se entrelaçam e se compõem.”
Confira trecho do musical:
O espetáculo foi o escolhido para marcar a edição 2025 do projeto CICLO – Artes e Conceitos de Londrina, com apresentações nesta quinta (30) e sexta-feira (31), às 20h, no Teatro Mãe de Deus (Av. Rio de Janeiro, 700). Metade dos ingressos será oferecida gratuitamente a instituições, coletivos culturais e pessoas com deficiência, reafirmando a proposta do festival de ser radicalmente acessível e inclusivo. Os demais lugares, 50%, seguem à venda na plataforma Sympla (R$ 40 inteira / R$ 20 meia + taxa).
PEÇA É UM RITUAL
Azira’i, a mãe de Zahy, era uma mulher de sabedoria rara. Pajé suprema da aldeia onde nasceram, era reconhecida como alguém que compreendia o mundo espiritual e curava com plantas, com as mãos e com o canto. Parte desse legado reverbera no espetáculo, Zahy canta lamentos ensinados pela mãe e canções autorais.
Azira’i faleceu em 2021, durante a pandemia, quando o processo de criação do espetáculo já estava em curso. “Ela foi minha mãe e minha mestra”, resume Zahy. “É uma presença tão viva que ainda me atravessa. “Às vezes sinto vontade de terminar o espetáculo e não voltar para os aplausos”, confessa. “A peça para mim é um ritual. Algo que não é para aplaudir, mas para sentir.”
O solo não tenta heroificar ninguém. Ao contrário, fala de contradições, de afetos complexos e dores sentidas na pele. Zahy compartilha episódios de violência e silêncio que marcaram sua relação com a mãe. O espetáculo também ganhou forma no papel, a dramaturgia foi publicada pela editora Cobogó, especializada em teatro e artes contemporâneas.
“A mãe era uma pessoa muito admirada e respeitada. Contava histórias e canções, e curava muita gente. Só não pôde curar a si própria. Tinha alguma coisa na mãe que perturbava muito ela. Mas que ela não conseguia enxergar o que era. A mãe precisava do escuro pra enxergar dentro dela. Só que na cidade os alienígenas têm uma mania de botar luz em tudo que é canto. É como se todo mundo tivesse querendo uma vida iluminada. Só que nunca chega.”

TRECHO DE AZIRA'I – UM MUSICAL DE MEMÓRIAS
A encenação é minimalista: uma cadeira, uma cortina de corda crua, iluminação de Ana Luzia Molinari de Simoni, que ganhou o Prêmio Shell pelo trabalho. Combinando português e Ze’eng eté, língua materna da atriz, o espetáculo propõe um novo pacto com o público. “Na maioria dos meus trabalhos, as pessoas pedem para eu traduzir o que falo”, comenta Zahy. “Mas chegou um momento em que comecei a me questionar. Se fizesse isso, estaria traindo a minha língua, porque não teria como traduzir literalmente várias coisas.”
Assim, Zahy reafirma a autonomia de sua identidade. “Quero contar uma história de alguém que saiu da sua reserva, foi para a cidade, aprendeu outra língua e teve uma relação intensa com a mãe. É uma história minha, mas também de muitos Brasis.”
“Estamos realizando projetos que pensam o Brasil a partir do que veio antes da chamada História Oficial”, explica Andréa Alves, da Sarau Cultura Brasileira, responsável pela produção. “Ao falar de biografias atravessadas e violentadas pela colonização, pensamos também no país que queremos construir.” A obra emocionou o escritor Ailton Krenak que viu em Zahy a coragem de abrir caminhos para o reconhecimento da história dos povos ancestrais, capazes de serem contemporâneos de tudo e fiéis a si mesmos. “Azira’i é um grito muito profundo desse território que habitamos”, define Krenak.
Quem quiser saber mais sobre Zahy Tentehar vai encontrar uma obra rica e diversa. Ela interpretou Domingas na minissérie "Dois Irmãos", da Rede Globo, com direção de Luiz Fernando Carvalho. Assina a vídeoperformance "Aiku’è" (R-existo) (com Mariana Villas-Boas). Realizou a mostra fotográfica "Olhar Meu" (Parque Lage) e atuou em filmes de Felipe Bragança, Pedro Neves Marques e Fábio Baldo. Agora está lançando um single: "KA'A'ZAR - Guardiões."
* Com assessoria.
SERVIÇO:
Azira’i – Um musical de memórias, com Zahy Tentehar
Quando: quinta-feira (30), às 20h | sexta-feira (31), às 20h
Onde: Teatro Mãe de Deus (Av. Rio de Janeiro, 700 - Centro, Londrina - PR)
Ingressos: Sympla
Duração: 80 minutos | Classificação: 12 anos
Idiomas em cena: português e Ze’eng eté
Acessibilidade: Arquitetônica + Intepretação em Libras + audiodescrição
*
Patrocínio: Lei de Incentivo à Cultura/Lei Rouanet, Copel e SANEPAR
Apoio/Parceria: Teatro Mãe de Deus, 2º Serviço de Registro de Imóveis de Londrina, Rádio UEL FM e Folha de Londrina
Realização: Palipalan Arte e Cultura | Projeto realizado com recursos da Lei Federal de Incentivo à Cultura – Lei Rouanet | Ministério da Cultura – Governo Federal/ Brasil do lado do povo brasileiro.


Da Redação
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