Curitiba Uma fórmula nunca é antiga o suficiente que não se possa reinventá-la. No teatro, um diretor, um ator, um cenógrafo têm duas alternativas quando a opção é abordar um tema explorado à exaustão: ou cria algo inusitado, sempre um risco, ou faz muito bem aquilo que se propõe, sem falhas. A Odeon Companhia Teatral, de Belo Horizonte, fez a segunda opção. E acertou. ''Amor e Restos Humanos'', que integrou a Mostra Contemporânea do Festival de Teatro de Curitiba, trata do amor e da violência urbana (temas recorrentes, nesta edição do festival, aliás) de uma forma bastante realista, mas sem deixar o romantismo de lado.
Por romantismo, entenda-se a capacidade de apostar numa vida melhor. A esperança de novos relacionamentos, de uma nova personalidade e de sonhos que possam tornar a existência mais fácil. A peça escrita pelo canadense Brad Fraser traz um casal nada convencional, Carol e David, às voltas com problemas sexuais e de afirmação. São interpretados com tanta naturalidade por Cynthia Paulino e Leonardo Bertholini que parecem ter saído do apartamento de um prédio qualquer de uma grande cidade.
Porque é assim, por mais náusea que cause a sexualidade suplicante dos personagens, por mais promíscuo que pareça os corpos nus se amando a toda hora, capaz de levar uma parcela do público mais indignada para fora do teatro, essa é a nossa década. Esses são os nossos problemas. Tão reais quanto fúteis.
A direção de Carlos Gradim lança mão de uma trilha nervosa, que acompanha a movimentação da peça. O cenário é uma caixa de ferro aproveitada em todas as suas dimensões. Ora os atores estão dentro dela, ora fora, em cima ou ao lado da caixa. O público é uma espécie de voyer na montagem, mas nem por isso se sente deslocado. Surpreende a dinâmica da encenação, que ressalta aos olhos do espectador que tem acompanhado o festival. Serve de lição para atores consagrados que deixam a bola da interpretação quicar no palco e sumir atrás das coxias.
É o caso de ''A Prova'', dirigida por Aderbal Freire Filho, com Andrea Beltrão no elenco. Apesar da atriz ter sido indicada para o Prêmio Shell como melhor atriz, em Curitiba, não arrancou mais que bocejos da platéia, exceto no final do espetáculo, claro, como tem sido de praxe. Outro espetáculo da Mostra Contemporânea que deixou a desejar foi ''A Hora em que Não Sabíamos Nada uns dos Outros''. Divulgado como um primor de dinamismo por causa das 600 trocas de figurinos em cena, a montagem dirigida por Marcelo Lazzaratto se mostrou nada mais que um desfile de roupas. Esqueceram apenas de levar os atores.

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