ESPETÁCULO - O teatro como forma de inserção social
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de dezembro de 2003
Jackeline Seglin<br> Reportagem Local 
A realidade de travestis que enfrentam o preconceito e a exclusão social é levada ao palco no espetáculo ''Eu Quero Viver de Dia'', montagem teatral que será apresentada hoje e amanhã, às 21 horas, na Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina. Em cena, Skarlet O'Hara Costa, Fernanda Kimbal e Anna Paula falam de desigualdade social, Aids e exclusão, mas também de sonhos, projetos e cidadania, de uma maneira alegre e descontraída.
Realizado pela organização não-governamental Adé-Fidan/Casa de Vivência Saara Santana, o espetáculo é resultado de um projeto das Oficinas de Aquendação (que na linguagem própria das travestis significa caçar, olhar) da Cidadania, iniciado há cinco meses sob coordenação do psicólogo Wiliam Peres. Doutorando em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, com o trabalho ''Subjetividade das Travestis Brasileiras: da Vulnerabilidade dos Estigmas à Construção da Cidadania'', Peres assina a direção e concepção geral do espetáculo.
''Eu Quero Viver de Dia'' (referência à obra de Maitê Schneider, transexual de Curitiba) é uma colagem de textos e músicas dividida em seis quadros. As travestis dublam e dançam composições de Cazuza, Chico Buarque (nas vozes de Maria Bethânia, Gal Costa e Elba Ramalho), Michael Gore e Marvin Hamlisch, e interpretam textos de Caio Fernando de Abreu, Vinicius de Moraes, Maitê Schneider e de Wiliam Peres.
A produção do espetáculo partiu da idéia de usar o teatro como dispositivo político de aproximação das travestis com a sociedade civil. Segundo Peres, o título escolhido é providencial, já que mostra a realidade das travestis, que estão mais ligadas à noite. ''Fiz estudos da obra de Augusto Boal e de José Celso Martinez Corrêa, fontes que influenciaram a pensar o teatro como intervenção política®MDBO¯®MDNM¯'', diz.
O projeto de montagem teatral começou com a participação de 12 travestis, mas apenas três chegaram até o final. Segundo elas afirmam, essa desistência se deve, em parte, ao medo e receio de um contato com a sociedade, como também à disciplina que o trabalho exigiu das participantes. ''O espetáculo é um exercício para enfrentar a sociedade, recebendo públicos diferentes, a que não estamos acostumadas'', diz Anna Paula.
Para Skarlet O'Hara, o teatro é uma forma de poder voltar a 'estudar', adquirir respeito e mostrar que elas têm capacidade de realizar muitas outrascoisas. ''O que mais nos machuca é a agressão verbal, a ofensa, o preconceito. A travesti é vista como marginal, sem-vergonha, apenas como uma máquina de fazer sexo'', afirma. ''O sonho de toda travesti é o mesmo. Ser respeitada'', complementa Fernanda Kimbal.
Wiliam Peres conta que o trabalho de inserção social realizado pela Adé-Fidan nos últimos dois anos tem aumentado a participação das travestis na sociedade. Elas realizam passeios a shoppings, cinemas e teatros, participam de conferências, integram conselhos e, nos últimos anos, vêm fazendo a abertura do Carnaval de rua londrinense.
Atualmente, cerca de 100 travestis estão cadastradas em Londrina pela Adé-Fidan, que trabalha com prevenção de DST/HIV e hepatites B e C. Além das atividades específicas, a instituição realiza também projetos como o Boa Noite Cidadão, Casa de Vivência e Oficinas de Artesanato.
A Adé-Fidan é referência no trabalho de resgate de cidadania, auto-estima e inclusão social de travestis. A ONG é financiada pelo Ministério da Saúde em parceria com a Unesco, Programa das Nações Unidas para Controle Internacional de Drogas e pela Prefeitura de Londrina.
Serviço:
- ''Eu Quero Viver de Dia'', promovido pela Ong Adé-Fidan/Casa de Vivência Saara Santana. Direção e concepção geral: Wiliam Peres. Hoje e amanhã, às 21 horas, na Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina (Rua Mato Grosso, 537). Coreografia e figurino: Mauro Marcos. Iluminação: Luiz Fernando. Maquiagem: Dandara. Ingresso: um quilo de alimento não-perecível. Patrocínio: Programa Municipal de DST/AIDS e Prefeitura de Londrina/Secretaria Municipal de Cultura. Apoio cultural: Casa de Cultura da UEL.


