Curitiba - Depois de quase três horas mostrando o funcionamento do circo para a reportagem do Folha 2, o proprietário Roberto Casssali faz um pedido: ''Por favor, não retrate o circo como uma arte decadente. Pelo contrário, os circenses estão em ascenção. Enquanto um artista na lona souber fazer uma criança sorrir, o circo vai continuar''. Cassali, 38 anos é também palhaço, malabarista, apresentador. Um ''artista completo'' como ele define o verdadeiro artista de circo. Há pouco mais de um mês, ele instalou o Circo Internacional Cassali em Curitiba, depois de percorrer o Sudoeste do Estado.
E apesar de todas as dificuldades enfrentadas na árdua carreira itinerante, ele revela que as vantagens compensam. ''Tem uma senhora de uns 80 anos que já voltou três vezes para nos assistir'', comemora, ressaltando que o reconhecimento do público é o termômetro do espetáculo. ''É o nosso troféu'', diz.
Neto de artista, profissão seguida também pelo pai, Cassali conduz o estabelecimento fundado pela família de origem argentina no início do século passado. ''Eu nasci dentro do circo, assim como meus filhos nasceram aqui e estão seguindo a carreira'', conta. O artista tem oitos filhos, entre 22 e quatro anos. O mais velho é o único que não participa do espetáculo dos Cassali, mas as sete meninas se apresentam ali, algumas delas, como Francine, 11 anos, escolhem o próprio figurino e dão palpites para incrementar os números no trapézio. O circo mantido por Cassali tem 28 funcionários, a maioria com parentesco familiar.
Os outros funcionários acabam sendo tratados como filhos. As histórias de como alguns deles chegaram ao local não escapam da tradição que persegue a arte milenar: eles ''fugiram com o circo'' das suas cidades de origem. O garoto ''Preto'', por exemplo, conheceu o circo aos 14 anos, quando ainda morava com a família na cidade de Rio Bonito (125 km a Oeste de Guarapuava). ''Ele assistia ao espetáculo todos os dias, acabava comendo com a gente e quando nos viu desmontando a lona disse que queria nos acompanhar'', lembra Cassali. Permissão da mãe do garoto concedida, Preto viaja com o circo Cassali desde então. Hoje, quatro anos depois, é uma espécie de ''faz tudo'' e acabou aprendendo as profissões de soldador, eletricista, além de algumas artes, como malabares.
''Há coisas que posso ensinar, outras não. Você pode fazer um número de circo com bastante treino em dois meses, mas o espírito circense não se ensina. É um dom'', revela Cassali. Ele ressalta que um artista tem que se comunicar com a platéia. ''Precisa ter glamour'', ensina, levantando da cadeira e gingando como um exímio apresentador. Além de shows de trapézio, malabares e palhaços, o circo também apresenta shows de animais. São cinco leões, dois pôneis e um casal de cachorros adestrados. ''Eles são tratados muito bem. Só os leões comem 250 quilos de carne por semana'', conta afastando possíveis represálias sobre manter animais enjaulados. ''Não posso dizer que não temos Ongs de defesa de animais nos questionando, porque isso sempre acontece, mas quando as pessoas conhecem o circo, as dúvidas desaparecem'', responde.
Mas enfrentar o preconceito das pessoas, principalmente em relação aos animais enjaulados, não é o único problema enfrentado pelos circos itinerantes atualmente. ''Existe a falta de apoio, os aluguéis de terreno com preços exorbitantes e os fatores climáticos. O vento, por exemplo, é o maior inimigo do circo'', diz. Nos últimos anos, a família Cassali já perdeu pelo menos três lonas. Cada uma chega a custar R$ 60 mil, fora toda o desgaste do equipamento. Atualmente, a caravana que forma o circo é composta por oito trailers e três jaulas.
E a itinerância é o menor dos obstáculos, segundo revela o proprietário do circo. ''As crianças estudam em cada cidade que paramos, ficam 15 ou 20 dias numa escola. Mas a gente se acostuma a viver assim. Até sente falta'', salienta. A pequena artista Francine revela que o único problema é perder os amigos. ''A gente faz amigos numa cidade, mas logo se despede deles'', lamenta. Mas ela diz adorar a rotina circense e conta que é comum as amigas da escola perguntarem o que fazer para se tornar uma artista. ''Eu ensino e digo que é preciso treinar muito''.
E para manter os espetáculos atualizados, todos os artistas assistem a muitos DVDs. Principalmente os que mostram as montagens do Cirque de Soleil. ''Minha vontade é chegar a uma estética semelhante a do circo que considero o maior do mundo'', imagina Roberto. Enquanto isso, o Circo Cassali segue encantando moradores de pequenas e grandes cidades. Em mais de um século de existência, o circo já se apresentou para milhares de espectadores que ainda acreditam que ''hoje tem marmelada''. ''A arte do circo mais difícil é a de fazer rir, porque para chorar o dia-a-dia está aí'', conclui Cassali.

Serviço:
- Circo Internacional Cassali, instalado ao lado do Terminal de Ônibus de Santa Felicidade. De segunda a sexta-feira, às 20h30. Sábados e domingos, apresentações extras até o dia 25 de abril. Ingressos a R$ 8,00 e R$ 5,00 (crianças). Informações e interessados em patrocinar o trabalho: (41) 9142 1198.

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