Uma das atrações da sexta edição do TIM Festival, que este ano acontece na segunda quinzena de outubro, a norte-americana Esperanza Spalding é um fenômeno de precocidade: aos cinco anos, revelou-se menina-prodígio ao ingressar em uma orquestra de câmera para tocar violino. Aos vinte, tornava-se a mais jovem professora da história da conceituada Berklee School, onde ingressou com apenas 16 anos, depois de começar a tocar contrabaixo quase por acaso.
  Hoje, aos 23, a compositora, cantora e contrabaixista acumula no currículo parcerias com estrelas como Herbie Hancock, Pat Metheny, Joe Lovano, Stanley Clarke e Patti Austin. Com sua mistura de jazz tradicional, soul, pop e world music, a artista está em turnê mundial para lançar seu segundo disco-solo, ‘‘Esperanza’’. Grande fã da música brasileira, Esperanza gravou em português ‘‘Ponta de Areia’’ (Milton Nascimento/Fernando Brant) e ‘‘Samba em prelúdio’’ (Baden Powell/Vinicius de Moraes) e fala nesta entrevista de sua carreira, seu trabalho e dos shows que fará no Rio e em São Paulo, cidades onde já esteve por duas vezes.

Animada com a sua vinda ao Brasil?
  Mal posso esperar. Estou animada até demais. Esta vai ser a minha terceira visita ao país. Da última vez já faz dois anos e realmente mal posso esperar para colocar os meus pés aí novamente. Tenho muitos amigos brasileiros e os incumbi de me levar para sair todos os dias para ver outros músicos tocar ou fazer qualquer programa que aparecer.

Como foram as duas outras vezes em que você veio?
  Toquei em São Paulo, no Bourbon Street, e no Rio, no Mistura Fina, há dois anos. Antes disso foi em 2003. Vim de férias conhecer a família do meu então namorado, o músico João Brasil.

Você canta em português. Já aprendeu o idioma ou sabe apenas a fonética das canções?
  Sei falar português sim, mas tenho muita vergonha de praticar. Divido apartamento com um brasileiro e tenho muitos amigos do Brasil com quem praticamente só converso em português, por isso tenho muitas oportunidades de falar a sua língua, mas no geral a timidez vence.

Como serão as suas apresentações no TIM Festival este ano?
  O grande diferencial dos shows que farei no Brasil é que o (violonista e compositor brasileiro) Chico Pinheiro vai tocar conosco. Isso vai ser muito especial. De qualquer forma, tocar no Brasil para mim é sempre especial, então acho que os shows serão incríveis.

Qual será o repertório?
  A base será o meu disco (‘‘Esperanza’’, do selo Heads Up), mas devo também tocar outras músicas – composições minhas e de outros. Sempre é uma mistura. Ao vivo tudo é mais excitante, mais colorido e mais divertido para nós.

Você tem obviamente muita influência da música brasileira em seu trabalho. Como foi o seu primeiro contato com ela e o que despertou o seu interesse?
  Não me lembro como conheci a música brasileira. O que me lembro é que, como tenho muitos amigos brasileiros, sempre ganhei deles fitas e CDs com compilações e daí surgiu o meu interesse. Primeiro comecei a ouvir João Gilberto e depois passei para Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal... Como venho do universo do jazz, também conhecia muito bem o disco Native Dancer, de Wayne Shorter e Milton Nascimento, e escutar aquilo pela primeira vez foi um momento definidor, no qual entrei em contato com o fusion. Outra influência foi o João Brasil, meu ex-namorado, que hoje faz um som maluco e pop, mas que tem uma incrível coleção de discos. Ouvi muito tudo o que havia na casa dele.

Tem algum músico brasileiro que você gostaria de conhecer nesta sua vinda?
  Centenas, claro. Tem uma dupla, Rosana e Zélia, uma delas morreu, mas adoraria conhecer a outra. Outro é o Egberto Gismonti. Aí, meu Deus. A lista é tão extensa que sequer tenho coragem de começar (risos). Uma artista que admiro muito é a Maria Rita. A-do-ra-ria conhecê-la.

Quanto tempo vai ficar por aqui?
  Uns cinco ou seis dias.

Já tem planos para o seu tempo livre?

  Olha, desta vez quero fazer tudo o que puder. Da última vez teve um evento. Eu estava cansada e resolvi não ir e acontece que o Hermeto Pascoal foi, toda a minha banda tocou com ele e eu fiquei a ver navios. Não vou deixar que isso aconteça novamente! (risos). Aprendi a minha lição. Também gostaria de conhecer o Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Você teve uma formação pouco ortodoxa. Parte da sua educação foi autodidata. Acha que essa liberdade foi fundamental para torná-la a musicista que é hoje?
  Honestamente, não sei. Sempre fui muito incentivada pela minha mãe a ser muito independente. Só posso dizer que para mim funcionou. Não sei como seria se tivesse feito diferente e agora não tem como voltar atrás e descobrir. Nem por isso recomendo que todos façam o que eu fiz. Para a minha personalidade foi o ideal, mas para outros pode não ser assim.

O que você tem escutado ultimamente?
  Tem uma cantora etíope que gosto muito, Aster Aweke. Ela é incrível. Muito Wayne Shorter e toneladas de Earth, Wind & Fire, que eu amo.

Em que cantoras você se inspira?
  Adoro Betty Carter. Maria João é incrível. Amo Maria Rita. Elis Regina também, claro. Dos cantores, Milton Nascimento, Nat King Cole... Nunca pensei em mim como uma cantora. Sempre estudo as canções como instrumentista e os cantores de que gosto têm em comum conseguirem passar muita emoção.
Como você acha que a sua vida será daqui a dez anos?
  Só posso torcer para que eu seja uma melhor musicista e cantora. Espero que o meu crescimento continue, que cada disco seja melhor que o anterior e que chegue ao coração de um número cada vez maior de pessoas.

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