Espelhos estilhaçados
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de dezembro de 2002
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha 
Parodiando Sartre, que dissera que ''o inferno são os outros'', um segredo é revelado: ''conheço o inferno: é o paraíso do mesmo''. Já pensou alguém em um lugar se olhando o tempo todo? A terrível presença da indiferenciação.
Salvo pela frase, mas preso à condição entre ''o ser e o nada'', existencialmente falando, Renato Russo vem à memória, cantando ''é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã'', fazendo lembrar da vida entregue à própria desilusão.
Lady Depressão sempre trouxe à luz maravilhosas obras de arte, revelando o afundamento do ser entregue ao pior da condição humana: ao desejo de se sentir incompreendido, rejeitado. Com nojo, não só da espécie, mas de si próprio enquanto parte dela.
Podemos pensar em van Gogh e no seu desespero de traduzir em arte sua rejeição, diante da sociedade. Em Wols, cujo refúgio do mundo eram suas próprias telas espelho do mundo em que viveu o que acabou gerando uma revolução estética, nos idos de 40, tanto na Europa (Informalismo) quanto nos Estados Unidos (Tachismo). Se tem ISMO, eu CISMO.
Tomado por questões existenciais como a de parar com qualquer movimento em curso, não há mais porque continuar algo que não leva a nada, a não ser ao próprio espelho que devolve ao mundo o que não se é. Reflexo de um tempo e de um lugar que não se deseja habitar.
Arte pela arte, arte-vida, arte como resistência a uma cultura massificada, empobrecedora, arte como reflexo da realidade, arte como reflexão, como ilusão, representação, isso parece apenas ser NADA diante da perda do ânimo de viver. Do apetite desperdiçado atrás de algum orgulho que possa gerar essas mesmas linhas hoje, ou algum dia. Pra quê? Se nem amar as pessoas como se não houvesse amanhã é possível acreditar mais? Menos pelo fato de que amanhã não vai existir, mais pelo fato de não conseguir amar. Quisesse fazer sentido, eu entrava para o exército!
Um lugar vazio é o que reclamaram vários artistas do projeto REJEITADOS, que foram aceitos (ironicamente) pelo, em cartaz, nono Salão de Arte da Bahia, no Museu de Arte Moderna em Salvador. A cada tentativa de encontrar um lugar para esse vazio, ele se transformava em algo. Mas não em algo que se pudesse dizer, relevante para as artes plásticas ou para os próprios artistas, mas um incômodo que só poderia se configurar como crise. O que era para se tornar uma contundente crítica ao sistema das artes acabou gerando uma série de questões (entendimentos e desentendimentos) entre os membros do grupo e o trabalho final virou um site na internet sobre o encaminhamento das propostas, dentro do coletivo que se reunia sobre essa designação de Rejeitados.
E é sobre essa margem entre o amor e o desamor, entre a raiva e a indiferença, entre a aparência e a essência, entre a presença e a ausência, entre o gesto e a idéia, que uma vala profunda se faz, porque a arte não pode servir de desculpas para ninguém usar seu próprio infortúnio como desculpas de um mundo que não escolheu. Fazer arte não é só uma questão de resistência, mas do uso de uma linguagem que exige dedicação e disciplina, em um jogo paradoxal em que o artista deve impor a todo o momento sua condição de ser livre na sociedade, inclusive dos parâmetros que defendem rigor estético e formal.
A incompletude talvez seja a única forma de compreender nossa finitude diante do infinito que a morte acena, sedutora. Até porque podemos abrir mão de lutar por um mundo melhor como se esse paraíso devesse ser reflexo de algo ainda por nascer. Não há beleza na desilusão. Narciso não sabe amar o espelho estilhaçado. Se a vida for expressão: eu bocejo!


