Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Com que olhar os detentos da Prisão Provisória do Ahu verão a si próprios, estampados em 60 imagens colhidas pelo fotógrafo Ricardo Almeida? Amanhã, às 10 horas, abre na sala de musculação do pavilhão a exposição fotográfica ‘‘Coletivo Solitário’’ que capta o dia-a-dia dessa gente exilada da sociedade. ‘‘Não sei o que vai acontecer, se eles vão mostrar alguma forma de sensibilidade, de sentimento. Estou curioso’’, diz Almeida.
Para ele, a atitude de levar as fotos ao local que serviu de cenário é uma homenagem prestada àqueles que se deixaram fotografar. ‘‘Estou na expectativa em saber se o meu olhar de ‘estrangeiro’ criará uma troca com essas pessoas.’’ Entende Ricardo que este é um sinal de respeito aos detentos, e não poderia ser de outra forma: ‘‘Aqueles que são fotografados têm o direito de se ver.’’
Dos espaços alternativos já transitados pelo fotógrafo este é inédito, e uma consequência deste tipo de trabalho. O profissional acredita que as 60 fotos compõem ‘‘uma tentativa de troca’’, sem ser realmente uma exposição. ‘‘O projeto está em fase de maturação.’’
Literalmente. Em novembro o fotógrafo entra em férias no emprego que tem na Prefeitura Municipal de Curitiba, e quer passar o maior tempo possível no presídio.
Mas a solidão se estende das celas para outros espaços – pelas lentes de Ricardo Almeida deverão passar as histórias contidas de um hospital psiquiátrico, de asilo de velhos, dos meninos de rua nos mocós (casas abandonadas que servem de moradia para eles) e das pessoas nos transportes coletivos.
Esse mapeamento do silêncio que tem o dom de asfixiar as almas ainda vai longe. Levará alguns anos até ser concluído, mas para o fotógrafo o tempo não é assustador. Para dar início ao projeto, esperou oito anos. Foi entre os meses de outubro e novembro de 1997 que ele atravessou os portões do Ahu para trazer desse mergulho as celas, os corredores, recortes de revistas, desilusões, fantasias.
A exposição de ‘‘Coletivo Solitário’’ na Prisão Provisória do Ahu conta com patrocínio do Governo Estadual, Prefeitura Municipal de Curitiba e Sanepar. Ricardo pretende transportá-la para o pátio da prisão aos domingos, dando oportunidade de ser vista também pelos familiares dos detentos. Para que isso ocorra, está tratando do assunto com a Secretaria da Segurança, Corregedoria dos Presídios e diretoria do Ahu.

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