Caminhando apressado, já esbaforido, preocupado com a longo trecho em subida à frente e atrás; da janela do ônibus; do banco do carona de uma humilde Brasília; sentado nos bancos de couro de uma BMW; sobre o selim, com o walkman potente.
  No táxi sobre duas rodas, de capacete abóbora; à margem plácida, de calças curtas, na primeira pescaria; de óculos escuros e sobre patins; de camiseta preta sobre o skate; de cadeira de rodas e de bem com a vida; lá no alto, escondido na copa de alguma árvore, em momento de transgressão social e contemplação explícita. O casal de namorados sem palavras, em reconciliação, descobrindo como um fazia falta ao outro.
  Dentro dos novos estúdios da rádio famosa; se comunicando com walkie-talkie na boléia do caminhão de bombeiros; tirando o pó dos móveis no 17º andar do arranha-céu; dentro do caiaque, remando automaticamente, refletindo sobre a finitude do belo e sobre a estupidez da degradação; nadando na água fria, acreditando em limpeza do corpo e da alma, recobrando lucidez e infelicidade.
  Há 14 meses, todos eles perderam o flash de alegria e orgulho que espocava com a visão robusta do lago, com o alívio de se apreciar amplitude, na mesma cidade que perde espaços e horizontes.
  Neste período, em que o cartão-postal se transformou em pedra no sapato da administração municipal, todos os personagens sentiram sua falta e descobriram que Londrina não tem a mesma graça sem ele. Compreenderam que a cidade foi ingrata com a bacia do Cambezinho (rio usado para formar meia dúzia de lagos no perímetro), que todos são piores por não cobrarem ação das autoridades e por não calcularem o estrago que fazem todos os dias, por serem ignorantes e não avaliarem como é complexa a relação homem e meio ambiente.
  A proliferação dos insetos, a mudança no microclima, o malcheiro, a imagem lamentável da lama. As mazelas foram digeridas, aos poucos sendo toleradas, golpeando diariamente a auto-estima.
  Mas esta semana, sem o sonho começar, o pesadelo acabou. Os 900 metros de extensão e os 140 metros de largura do Lago Igapó 2 foram novamente tomados. Em alguns pontos, são 3,5 metros de profundidade. Em outros apenas um metro. O lago continua por um fio.
  Os ambientalistas dizem que o sonho de um complexo de lagos límpidos, vivos, bonitos e desassoreados pode ser alcançado em meia década. Pedem menos impermeabilização do solo, pedem mais cuidados com as galerias pluviais, pedem que não se jogue lixo nas ruas, pedem calçadas verdes e reguladores de margens.
  Procuram-se pessoas que topem este desafio. A recompensa é do tamanho da euforia que tomou conta de cada um ao ver a paisagem completa de novo. A recompensa é a garantia de que os problemas que o lago cheio escondeu, não resultarão em novo esvaziamento e em mais incompletude. Que a triste história de 14 meses não tenha um epílogo.

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