''Você tem as únicas duas coisas que valem a pena de possuir - beleza e juventude''. A afirmação, feita pelo cínico personagem de Lorde Wotton, de alguma forma fundamentam as bases que irão influenciar profundamente a moralidade de Dorian Gray, personagem trágico criado por Oscar Wilde e que ganha uma nova adaptação para o cinema em ''Dorian Gray'', que estreia hoje no Cine Com-tour/UEL.
A conhecida narrativa acontece no séc. XVIII, quando o jovem Dorian Gray (Ben Barnes) desembarca na decadente Londres para herdar uma grande fortuna deixada pelo seu avô. Na capital inglesa, ele é prontamente apresentado ao artista Basil Hallward (Ben Chaplin), que fica imediatamente encantado pela beleza pura e encantadora do garoto, e logo se oferece para produzir um retrato tendo Dorian como modelo; enquanto isso, um outro personagem que logo surge na trajetória de Dorian é o de Lorde Wotton (Colin Firth) que, através de um humor lacônico, se diverte às custas da ingenuidade do garoto, apontando para ele a hipocrisia que reina dentro dos salões e das festas, e as máscaras que escondem - por trás das belas jóias e riqueza - a natureza pérfida e degenerada da nobreza.
Escutando de perto os conselhos do Lorde, a ingenuidade de Dorian vai lentamente desaparecendo, ao mesmo tempo em que sua moral é confrontada, dia após dia, pelos prazeres carnais introduzidos por Wotton. Depois de algum tempo na fogueira das vaidades, o garoto adquire o hábito de fumar e beber, enquanto tenta aproveitar ao máximo sua vida e riqueza. ''O mundo está aos seus pés, mas apenas por uma temporada'', aconselhava Wotton, e Dorian começou a fazer de tudo para seguir os passos do Lorde.
Mudando completamente de personalidade, Dorian involuntariamente assume um pacto com o oculto, vendendo sua alma pelo prêmio da juventude eterna. A partir daquele momento, o retrato pintado por Basil Hallward é que assume todas as feridas e destruição causadas pelo tempo, revelando para o jovem um mundo infinito de libertinagens, álcool e orgias, tudo isso sem ele ter que envelhecer um só dia, ou até mesmo carregar qualquer marca de seus excessos.
Dirigido por Oliver Parker, o filme peca em assumir um ritmo rápido demais, quase saltando de um momento para o outro, e não permitindo ao espectador a chance de saborear as inúmeras sensações vividas na transformação do personagem principal. A atuação do novato Ben Chaplin é mediana, e a narrativa só assume um viés mais interessante porque é auxiliada imensamente pela presença do veterano Colin Firth, vencedor do Oscar neste ano.
Não é sem motivo que essa é a 16 adaptação do livro para o cinema e TV; mesmo aproveitando ao máximo a vida desregrada, Dorian não possui verdadeiros laços afetivos com nenhum outro ser humano, e o romance de Oscar Wilde sempre acaba por transmitir um significado atemporal; quando Dorian Gray assume, depois de toda uma existência de excessos, que ''o prazer, por si mesmo, não traz felicidade'', essa é uma mensagem que reflete profundamente no espírito de nosso tempo e, consequentemente, em nós mesmos, frutos de uma sociedade superficial e hedonista.

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