Espelho animal em pele humana
'Memórias de um Urso-Polar', romance de Yoko Tawada, narra a história de três animais que se tornaram quase humanos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de agosto de 2019
'Memórias de um Urso-Polar', romance de Yoko Tawada, narra a história de três animais que se tornaram quase humanos
Marcos Losnak 
Transformar animais em personagens com características humanas é um antigo instrumento da literatura. Os registros mais antigos apontam para as fábulas do grego Esopo (620 – 564 a.C.). Entre os registros mais recentes está “Memórias de um Urso-Polar”, romance da escritora japonesa Yoko Tawada lançado pela editora Todavia.
Primeiro livro da autora publicado no Brasil, traz a história de três ursos-polares, personagens de três gerações: mãe, filha e neto. A narrativa vai muito além do que colocar sentimentos humanos em ursos. Yoko Tawada também coloca características animais em humanos. As vozes narrativas se confundem. A voz animal parece humana. A voz humana parece animal.
Para escrever “Memórias de um Urso-Polar” Tawada partiu de um episódio real. Em 2006, um bebê de urso-polar nasceu em cativeiro no Zoológico de Berlim. Rejeitado pela mãe logo após o parto, o filhote chamado Knut passou a ser criado pelos funcionários do lugar. Sem entender como um ursinho tão fofo foi desprezado pela mãe, a imprensa e a população transformaram rapidamente Knut numa celebridade.
Yoko Tawada desenvolve não apenas a história de Knut, mas também de sua mãe, Toska, e de sua avó. Três gerações de ursos-polares que precisam aprender a se relacionarem com o mundo humano em diferentes épocas históricas.

A avó, após atuar em vários circos na Rússia, aprende a escrever. Começa então escrever sua autobiografia em capítulos. Quando os primeiros capítulos são publicados, torna-se uma autora famosa e precisa se exilar na Alemanha Ocidental. Buscando um lugar mais frio para viver, muda-se para o Canadá onde se casa e tem uma filha, Toska. Logo em seguida muda-se para a Alemanha Oriental.
Toska torna-se bailarina de circo e devido ao movimento dos direitos dos animais, perde o emprego e vai parar num zoológico, onde nasce Knut, após a queda do Muro de Berlim.
O enredo básico é esse. Mas o grande teor no livro não está no enredo. Está em como a narrativa é trabalhada para revelar como os animais tentam entender como os humanos funcionam e como os humanos tentam entender como os animais funcionam. Em pé de uma possível igualdade.
“Memórias de um Urso-Polar” é um romance kafkiano. Possui inúmeros espelhos sem saída onde o sentimento animal é um espelhamento dos sentimentos humanos e o sentimento humano é um espelhamento dos sentimentos animais. Nesse jogo de espelhos, tudo se confunde e frutifica a estranheza. Tudo se confunde até mesmo nas vozes em primeira e terceira pessoa.
Estranheza é justamente a grande experiência de leitura de “Memórias de um Urso-Polar”. O tipo de estranheza que só a literatura contemporânea pode conceder. Não responde objetivamente a nenhuma questão. Não estabelece nenhum padrão de começo, não tem interesse em apontar para um fim.
Yoko Tawada nasceu em 1960 no Japão. Em 1972, aos 22 anos, mudou-se para a Alemanha e nunca mais voltou a residir em seu país de origem, fixando residência em Berlim. Autora de mais de uma dezena de livros, foi agraciada com 13 prêmios literários na Europa e Japão.
Como escritora, Tawada possui a particularidade de escrever seus livros em duas línguas, tanto em japonês quanto em alemão. Algumas obras escreve em japonês e depois reescreve em alemão. Outras obras escreve em alemão e depois reescreve em japonês. Não se trata apenas de traduzir a própria obra, mas de criar duas versões distintas de um mesmo texto literário. “Memórias de um Urso-Polar”, é um desses casos, foi escrito em alemão e posteriormente reescrito em japonês. A edição brasileira traz a tradução da versão em alemão.
A experiência dos ursos no romance de Tawada apontam para abordagens múltiplas. Podem apontar que zoológicos são uma alegoria do controle social. Podem apontar que se o humanos querem direitos humanos, também devem dar aos animais os direitos animais.
Mas vai além. Assim como o ser humano projeta nos animais fofos sua própria humanidade, os animais também podem projetar nos humanos a tentativa de se livrar da própria animalidade. E isso pode assumir a forma de um infinito labirinto de espelhos. Seja sentimental ou falacioso.

Serviço:
“Memórias de um Urso-Polar”
Autora – Yoko Tawada
Editora – Todavia
Tradução – Lúcia Collischonn de Abreu e Gerson Roberto Neumann
Páginas – R$ 272
Quanto – R$ 64,90


