Fortaleza, 18 (AE) - Deu o que tinha de dar e o grande vencedor do 9.º Cine Ceará foi mesmo "Solas", de Benito Zambrano. Aliás, o longa espanhol fez barba e cabelo, levando não só o prêmio do júri oficial, mas também o do público. Na categoria curta venceu o paulista "Amassa Que Elas Gostam", de Fernando Coster, que acumulou os prêmios de melhor filme e melhor obra de animação. Outro filme de São Paulo, "Uma História de Futebol", faturou três troféus, direção (Paulo Machline), roteiro (José Roberto Torero, Maurício Arruda e Paulo Machline) e fotografia (Lito Mendes da Rocha). Na categoria vídeo, "G - Constelação do Céu da Boca do Inferno", do baiano Pola Ribeiro, levou as principais menções: melhor vídeo, direção e roteiro (Maria Neto, Antonio César e Pola Ribeiro). "Nação de Gente", de Margarita Hernandez e Tibico Brasil, ganhou o prêmio de melhor produção cearense.
Não há como discordar dos júris de filme e vídeo senão por alguns detalhes. Se fizeram bem em atribuir uma menção especial ao longa japonês "Peixes de Agosto", esqueceram-se do sensível "In Principio Erano le Mutande", da italiana Anna Negri, que saiu de Fortaleza de mãos abanando e mereceria melhor sorte. Nada a objetar quanto às principais premiações na duração curta-metragem. Mas estranha o fato de os jurados terem abdicado de conceder estatuetas a ator e atriz quando tinham algumas opções disponíveis. A mais óbvia delas sendo a interpretação de Lima Duarte, que encarna o general João Batista Figueiredo em "Novembrada", reconstituição ficcional dos protestos estudantis em Santa Catarina contra o último dos presidentes da era militar. "Novembrada", de Eduardo Paredes, teve de se contentar com os troféus de montagem (Vera Freire) e direção de arte (Cristiano Amaral). Na seção de vídeo, a ausência mais marcante é a do criativo "Era uma Vez", produção cearense de Fabíola Liper e Ricardo Pinto.
Nada disso, porém, tira o mérito dos vencedores, todos eles títulos de qualidade. A começar por "Solas", que agora talvez possa encontrar um distribuidor de juízo, disposto a lançá-lo no mercado comercial brasileiro. O filme, segundo seu diretor, fez boa carreira na Espanha, com 340 mil espectadores. Continua em cartaz, quatro meses depois de lançado. O diretor Benito Zambrano sabia que era favorito. Confessou-se apenas surpreso com a premiação do júri popular: "Tinha achado a recepção meio fria", disse. Não se sabe o que mais ele esperava
pois nunca se tinha visto no Cine São Luís tamanha quantidade de adultos chorando convulsivamente durante e depois da projeção. Filme para emocionar sim, mas sem apelo ao melodrama. Fala da relação entre pais e filhos, da solidão da velhice, da intolerância machista. Com grande sensibilidade.
"Amassa Que Elas Gostam", de Fernando Coster, merecia mais este reconhecimento, depois de ter faturado prêmios nos festivais de Brasília e Dresden. Estabelece diálogo criativo com a pornochanchada, mesclando as técnicas de ficção e animação. Quer dizer, fazendo conviver personagens de carne e osso com desenhos animados. Na história, uma mulher carente (Malu Bierrenbach) apaixona-se por um bonequinho pornográfico, um certo Valdisnei (corruptela de Walt Disney). O ator Nuno Leal Maia empresta sua voz ao tipo cafajeste de Valdisnei. O resultado é hilário e levanta a galera, no bom sentido do termo. Final meio abrupto, que poderia ter sido mais bem trabalhado. Mesmo assim, é aquele tipo de filme destinado a durar e a fazer sucesso por onde passar.
"G - Constelação do Céu da Boca do Inferno", de Pola Ribeiro, mostra como é possível transformar um documentário, em princípio institucional, em trabalho de valor artístico. O vídeo refaz a trajetória do poeta baiano Gregório de Matos, conhecido como Boca do Inferno, e procura estabelecer o diálogo entre uma obra poética feita no passado e apreciação no presente.
"Uma História de Futebol", de Paulo Machline, tido como ingênuo por muita gente, conta uma bonita história, a de Pelé, pela reconstituição de uma partida que o então moleque pobre e bom de bola jogou quando era criança, em Bauru. A platéia amou. Se houvesse prêmio de público para curtas-metragens, "Uma História de Futebol" teria faturado, a julgar pelo termômetro dos aplausos. Política - No setor política cultural, o principal resíduo do 9.º Cine Ceará fica sendo a Carta de Fortaleza, proposta para a consolidação e o trabalho da segunda fase do Pólo de Cinema do Ceará. O pólo, que deve instalar uma indústria cinematográfica no Estado, já deu origem a vários filmes, está produzindo outros
dispõe de sede física de ponta, o Instituto Dragão do Mar, e é articulado a um festival que lhe dá visibilidade e permite uma reflexão pública e anual de suas atividades e problemas. Precisa
a cada ano, repensar suas condições de continuidade, pois nada, no Brasil, é em princípio permanente.

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