Espanhol "Solas" desponta como favorito no 9º Cine Ceará
Fortaleza, 16 (AE) - Surgiu o grande favorito para vencer o 9.º Cine Ceará: o espanhol "Solas" (Sozinhas), de Benito Zambrano. Com sua história simples, humanista e calorosa, conquistou a platéia presente ao Cine São Luís e recebeu prolongados aplausos no fim da sessão. Muito marmanjo foi visto usando seu lencinho para enxugar os olhos furtivamente durante a projeção. De fato, ainda que atravesse vez por outra a fronteira do melodrama, "Solas" é aquele tipo de filme que consegue, no final das contas, transmitir uma emoção genuína, seca, que evita chantagear o espectador com expedientes fáceis.
Zambrano, natural da Andaluzia, estudou em Cuba, na Escuela Internacional de Cine, TV y Video de San Antonio de los Baños. "Solas" é seu primeiro longa-metragem. No fim da sessão
foi cumprimentado por seu antigo "maestro", o cineasta Julio Garcia Espinosa, presente em Fortaleza. Quando um repórter observou a semelhança temática entre "Solas" e "Reina y Rey"
filme mais recente de Espinosa, o diretor cubano observou: "Somos todos filhos de Umberto D".
A referência à obra-prima de Vittorio De Sica é precisa e perfeitamente aplicável no caso de Zambrano. De Sica comoveu o mundo com o caso do trabalhador idoso que chega à indigência. "Solas" conta uma bela história humana, do desamparo, mas também da dignidade na velhice, na possibilidade de amparo entre as pessoas, enfim, desses sentimentos que parecem um pouco demodés no tempo da competição para rachar, mas que retornam vez por outra. E quando retornam, emocionam as pessoas, numa prova de que também fazem parte da natureza humana. Seriam uma espécie de resíduo ético, digamos assim. Um traço ancestral.
Na história, uma velha camponesa acompanha o marido à cidade porque este precisa submeter-se a uma cirurgia. Enquanto o marido fica no hospital se recuperando, a mulher permanece na casa da filha, num bairro problemático e violento dos arredores de Sevilha. Sua filha é, ela própria, violenta e problemática. Alcoólatra, sem horizonte na vida, grávida de um estróina, agressiva e amarga. No mesmo prédio, mora um homem idoso, que vive em companhia de um cão.
Pela interação desses personagens, Zambrano fará aparecer alguns dos motivos principais do filme: a opressão da sociedade machista espanhola sobre as mulheres; o desamparo da velhice; finalmente, a possibilidade de alguma redenção quando as pessoas conseguem quebrar barreiras e unir-se. Um belíssimo filme, que deve tudo ao seu texto quase sempre enxuto e elenco maravilhoso, com destaque para Maria Galiana (a mãe), Maria, a filha (Ana Fernández) e o velho vizinho (Carlos Alvarez). Temática feminista - A outra boa surpresa do festival veio com o italiano "In Principio Erano le Mutande", que pode ser traduzido para "E no Princípio Existiam as Calcinhas" - uma paródia das palavras da Bíblia. A diretora Anna Negri quis fazer um filme assumidamente feminista. Mostra a história de uma jovem
Imma, com a libido em deriva e em busca do assim chamado grande amor. E ele parece vir na persona de um bombeiro balofo, que salva a moçoila de um acidente no aquecimento a gás. Mas ela ainda terá de percorrer um longo caminho para conquistar o namorado.
O filme é sutil, divertido e aposta numa visão anti-romântica do mundo. Ela parece dizer que o romantismo é uma armadilha criada pelos homens para iludir as mulheres. Mas não hesita em arrematar a história também por um lance romântico. Quer dizer: armadilha sim, porém inevitável.
Brasil - O representante brasileiro na Mostra Internacional de Novos Talentos, "Um Copo de Cólera", de Aluísio Abranches, também teve boa recepção. O público de Fortaleza que assimilou bem as fortes cenas de sexo do longa baseado na novela de Raduam Nassar e curtiu a alegoria de luta pelo poder decidida na cama. Quem não gostou nada do filme foi a italiana Anna Negri, que, pelos corredores do festival, dizia que "Um Copo de Cólera" era machista até a borda. Questão de gosto - e de leitura ideológica, claro.
Entre os curtas-metragens, o destaque fica para "Uma História de Futebol", de Paulo Machline. Com sua narrativa simples, o filme descreve o início de uma trajetória exemplar, a do menino pobre, bom de bola, que se transforma em ídolo por força do seu talento. História de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. O filme foi aplaudido durante vários minutos e é forte candidato.
A premiação do 9.º Cine Ceará será anunciada amanhã (17) à noite no Cine São Luís. Além da divulgação dos vencedores, a festa de encerramento terá exibição de dois longas-metragens, ambos fora de concurso: "O Viajante", de Paulo César Saraceni, e "Oropa, França e Bahia", do cearense Gláuber Filho. (L.Z.O.)





