Espanhóis fechados contra Almodóvar
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terça-feira, 04 de fevereiro de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Não deu outra. Quase tudo para ''Los Lunes ao Sol'' e quase nada para ''Hable con Ella'', na noite do último sábado no Palácio de Congresos del Campo de las Naciones, em Madri, durante a entrega dos prêmios Goya o Oscar da Espanha , confirmando o mal disfarçado divórcio entre Pedro Almodóvar e a Academia del Cine EspaÀol. Já vacinado contra os conterrâneos que rejeitam conviver com seu criativo e hiperinflado ego, e não toleram os muitos prêmios internacionais com direito à justas adulações da crítica em todo o mundo, Pedro Almodóvar foi o grande ausente da noite. Na platéia e na lista de premiados, apesar das sete nominações só levou uma estatueta, a de trilha sonora entregue ao compositor Alberto Iglesias. ''Los Lunes ao Sol'', indicado para oito prêmios, deu ao trabalho de Fernando León de Aranoa, além dos Goyas de melhor filme e direção, os troféus de melhor ator (Javier Bardem), melhor ator coadjuvante (Luis Tosar) e melhor ator estreante (José Angel Egido).
Outro perdedor de peso foi ''História de un Beso'', de José Luis Garci, que não transformou em prêmios nenhuma das sete nominações. Foi no varejo, no entanto, que a Academia, presidida pela atriz Marisa Paredes, promoveu farta distribuição de Goyas aos demais filmes nominados, dentro da velha e diplomática fórmula de recompensar o maior número possível de artistas-membros. ''El Embrujo de Shangai'', de Fernando Trueba, levou três; ''En La Ciudad Sin Límites'', de Antonio Hernández, ficou com dois importantes: roteiro original e atriz coadjuvante (a veterana Geraldine Chaplin). Mais dois foram ''La Caja 507'', Enrique Urbizu (montagem e direção de produção). Outros dois, em cem por cento de aproveitamento, ficaram para a co-produção hispano-argentina ''Lugares Comunes'', de Adolfo Aristarain: roteiro original e melhor atriz (Mercedes Sampietro).
A atriz francesa e convidada especial da noite, Jeanne Moreau, anunciou o Goya de melhor filme europeu: ''O Pianista'', de Roman Polanski. O melhor filme estrangeiro de fala a foi ''El Ultimo Tren'', uruguaio de Diego Arsuaga. A homenagem especial foi prestada ao veterano ator Manuel Alexandre, que levou um Goya honorífico por uma carreira de mais de 300 filmes. A cerimônia foi fortemente marcada pelo protesto anti-intervenção americana no Iraque. Todos os participantes portavam crachá com a frase ''No a la Guerra'', e no palco reforçavam a posição com palavras de ordem em pesquisa revelada durante esta 17 edição dos Goya, 74 por cento da população espanhola manifestaram-se contra a provável agressão americana.
Mas se a cerimônia mostrou-se competente como fórum de protesto, como espetáculo foi no mínimo lastimável. Risível, para ser condescendente. A companhia circense-teatral ''Animalário'' montou um cenário que, com muita boa vontade, evocava o ambiente feericamente musical e festivo dos filmes do iugoslavo Emir Kusturica ''Vida de Cigano'', ''Gato Preto, Gata Branca'' Os dois atores-apresentadores, em flagrante disfunção, não tinham ritmo, não ofereciam nada de novo e eram praticamente indirigíveis.
E o canal por assinatura TVE - Televisión EspaÀola precisa melhorar muito, não apenas a pobre transmissão dos Goya mas na mesma medida boa parte de sua programação diária noticiários, entretenimento, cultura, tanto no formato envelhecido quanto no recheio pobre. Afinal, trata-se da imagem oficial do país europeu que nos últimos tempos mais vem investindo na industria do turismo. Pelo que se assiste por aqui, este retrato mal acabado e exportado é a pior propaganda que os espanhóis podem desejar.


