Francelino França
De Londrina
Londrina espera verbas do Ministério da Cultura para as reformas do Cine-Teatro Ouro Verde. Por enquanto, estão sendo feitos reparos, o que significa pouco para um prédio de importância vital para a cidade
O imponente edifício do Cine-Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85) é considerado um dos maiores representantes da fase áurea do café em Londrina. Do apogeu cafeeiro, restaram na cidade alguns monumentos de envergadura, demonstrando em concreto armado até que ponto o café impulsionou o desenvolvimento da cidade. O projeto, de autoria de João Batista Vilanova Artigas, faz parte de um conjunto arquitetônico, juntamente com o Edifício Autolon e o antigo restaurante Calloni. A obra é referência até hoje em muitos compêndios de arquitetura.
No início dos anos 50, o Cine Ouro Verde era uma edificação de impacto para a cidade, de linhas inovadoras, estabelecendo um padrão de excelência em termos de arquitetura de cinema em Londrina. A concepção arquitetônica conferiu à cidade ares de modernidade, cujos traços foram repetidos em Curitiba e São Paulo.
Na época da inauguração, o Cine Ouro Verde era considerado o maior cinema do interior do Brasil, oferecendo 1.500 lugares, ar condicionado perfeito, ampla sala de espera e modernas aparelhagens de exibição. Vilanova Artigas incluiu no projeto a construção de paredes duplas, para evitar ruídos externos. O sistema de refrigeração funciona até hoje. Do ponto de vista estrutural, o prédio se mantém em boas condições, sem apresentar rachaduras.
A sessão inaugural, em 24 de dezembro de 1952, às 20h30, exibiu o filme ‘‘Londrina, Cidade do Caf钒, película patrocinada pela Sociedade Amigos de Londrina. Após os trailers, entrou em cartaz, ‘‘Meu Coração Canta’’, estrelado por Susan Hayward, filmado em tchnicolor, pela 20th Century Fox. Na ocasião, compareceram ao evento diretores da Fox, Warner e United Artists, vindos diretamente dos Estados Unidos.
As matinês do Cine Ouro Verde eram motivo para o ‘‘footing’’ entre os jovens nas décadas de 50 e 60. As moças desfilavam com saias godê, enquanto os rapazes jogavam charme, todos engomadinhos. Muitos pedidos de namoro, noivado e casamento floresceram no escurinho do cinema, tendo como testemunhas grandes ícones hollywoodianos.
Em 1978, a Universidade Estadual de Londrina adquire o cinema por 10 milhões de cruzeiros, assumindo as atividades cinematográficas, instituindo também um espaço cênico, pois a cidade não possui um teatro municipal. Para isso, foi preciso fazer algumas adaptações: avanço do palco, recuo da platéia e redução de 1.500 para 970 assentos. Também foram construídos camarins de madeira ‘‘provisórios’’, instalados spots de iluminação, colocados forros para acústica teatral e o urdimento (teto acima do palco) subiu 12 metros.
A partir daí, o espaço passou a se chamar Cine-Teatro Ouro Verde, sendo palco de grandes eventos políticos, culturais e sociais de Londrina. Os maiores artistas brasileiros da música e teatro foram ovacionados no local. Manifestações políticas e estudantis, no período da ditadura militar, ganharam força no palco do teatro.
Todo esse conjunto de fatores faz com que hoje o Cine-Teatro Ouro Verde seja considerado um patrimônio histórico de Londrina e seja preservado. Há muito tempo, a infra-estrutura precisa se adequar à realidade dos grupos que se apresentam naquele espaço. Muitos espetáculos deixam de ser apresentados ali em função da inviabilidade do teatro comportar determinadas obras cenográficas. Algumas companhias com elenco numeroso também não fazem escala por aqui. Isso impede uma programação mais ousada.
O diretor da Casa de Cultura da UEL, professor Alcides Carvalho, lembra que desde a inauguração o Cine-Teatro Ouro Verde nunca passou por uma grande reforma, mas somente por reparos contínuos, em elementos deteriorados pela ação do tempo. ‘‘No entanto, não teve uma adaptação total e definitiva para teatro. Os camarins provisórios de madeira existem até hoje’’, constata.
Por enquanto, com verbas da própria Universidade, estão sendo feitos reparos em caráter urgente-urgentíssimo, que compreendem revisão dos cabos de fiação, lixamento do palco, reparo na iluminação e letreiro da frente do teatro, instalação da central de interfones, reparo no forro da platéia, entre outros.
Na próxima segunda-feira, Carvalho encaminha ao secretário do Patrimônio Museu e Artes Plásticas do Ministério da Cultura, projeto da reforma do Ouro Verde, no qual solicita R$ 200 mil para a construção dos camarins (individuais e coletivos) em 4 pisos, melhoria e alargamento (em 2,5 mts) da coxia situada no lado esquerdo do palco, a criação de espaço para ensaios e guarda de material.
Carvalho conta com a ajuda de um Membro do Conselho do Ministério da Cultura para agilizar a liberação da verba. Há um lampejo de esperança de que seja liberado o montante solicitado. A data limite para começar a segunda fase de reformas é 31 de janeiro. Depois desse prazo, torna-se inviável a conclusão das obras em 90 dias, pois em 01 de maio começa o Festival de Teatro.
Numa terceira etapa, a reforma abrange melhorias gerais na estrutura (telhado, forro), reparos na parte acústica e climatização, troca de poltronas, aumento da dimensão do palco, obtidos através do recuo e avanço da área (criando um fosso para orquestra). Essa reforma está orçada em R$ 1 milhão, dinheiro aprovado no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social), mas depende ainda acertos com entidades financeiras.
Uma outra forma de se obter recursos para a reforma emergencial do Cine-Teatro Ouro Verde é a criação de uma fundação, que se preocuparia da captação de recursos, manutenção e proteção do espaço. Para isso, Alcides Carvalho propõe à cidade a criação da ‘‘Associação de Amigos do Ouro Verde’’. ‘‘A sociedade organizada precisa se defender’’, alega. Nos Estados Unidos e Europa, os detentores de grandes fortunas fazem questão de contribuir para a manutenção da memória cultural, com generosas doações a campanhas do gênero.
Cidades como Toledo, Campo Mourão, Maringá e Ibiporã possuem Teatro Municipal. ‘‘Isso é um acinte. Londrina sedia o maior e mais antigo Festival de Teatro da América do Sul há 32 anos, abrangendo a parte regional, nacional e internacional e não possui um teatro Municipal’’, reclama. A falta de perspectiva para a construção de um Teatro Municipal faz com que a reforma do Cine-Teatro Ouro Verde ganhe um caráter de urgência.

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