Esmurrando páginas em branco
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de junho de 2002
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha 
Da literatura pode-se esperar de tudo. A imaginação do autor pode avançar sobre qualquer território. Em alguns casos, pode até construir novos territórios, ver coisas onde nada existe, cegar o mundo num único gesto e muito mais.
Não Há Nada Lá, do paulista Joca Reiners Terron, é um exemplo concreto de como a literatura pode avançar territórios, ao mesmo tempo em que inventa outros. Com personagens não originais, ergue uma narrativa original. Lançado pela Editora Ciência do Acidente, o livro apresenta uma história em que a realidade assume a imagem de um pacífico e banguela cão de guarda vigiando a irrealidade.
Não Há Nada Lá marca a estréia de Terron no campo da prosa após dois volumes de poesia. A novela recebeu menção honrosa no Prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, promovido pela revista Cult. Reúne experiências mentais construídas com as ferramentas da literatura. Versa sobre um tema que perturbou escritores através dos tempos: o universo aprisionado nos livros.
Não Há Nada Lá tem como personagens figuras do mundo literário em momentos irreais como William Burroughs, Fernando Pessoa, Torquato Neto, Isadore Ducasse, Arthur Rimbaud e Raymond Roussel. Para colocar combustível na alucinação, insere celebridades como o Papa Pio XI, Jimi Hendrix, a Virgem de Fátima, Aleister Crowley e Billy-The-Kid.
O emblema básico da narrativa estaria no fato de os personagens, pelas mãos do verbo, assumirem a forma dos sete selos do Apocalipse bíblico. Ou seja, revela um fim através da transmutação do corpo em palavra. Utilizando os instrumentos da literatura para falar da própria literatura, Terron demonstra que o mundo não faz literatura, ao contrário, a literatura faz o mundo. Nesse sentido a novela é uma declaração de amor às palavras trafegando entre o bem e o mal pois até mesmo o bem e o mal são construídos com palavras, com o mesmo verbo primordial que deu origem ao mundo.
Um dado interessante é que a edição da obra incorpora mensagens gráficas no próprio conteúdo da trama. Como se a tinta e o papel fizessem parte da edificação da palavra. A construção das palavras na mente humana, e sua posterior diluição através da banalização como do acúmulo é um fato recorrente na civilização contemporânea nem sempre levado em conta pelos próprios escritores.
Não Há Nada Lá é formado pelas várias pontas de um discurso fragmentário. Pontas que são conectadas lentamente até o nó final, aquele que une todas as pontas dando forma ao que parecia desprovido de forma. Ao final, esse nó também pode ser desatado, desenhando todas os pontas que tornaram possível sua existência. Consegue, através de um bom domínio narrativo, oferecer uma avalanche de imagens que demonstra como a loucura pode ser descrita de maneira lógica, da mesma maneira como a lógica pode ser descrita de maneira enlouquecida.
Serviço:
Não Há Nada Lá de Joca Reiners Terron, Editora Ciência do Acidente (telefone 11 3871-9606), 176 páginas, R$ 22,00.
Antes de deslizar para fora do terno negro que usava, tornado subitamente inadequado para um ser sem membro algum, a imponente cascavel com sete olhos e sete chifres em que se transformara Guilherme Burgos impele contra o espelho sua cabeça em forma de ponta de seta, quebrando-o em centenas de pedaços. Despencando da cama ao chão num baque surdo, a serpente desvencilha-se das roupas e rasteja para a porta dos fundos. Nos cacos espalhados aparecem palavras entrecortadas, letras esparsas sem significado algum, se repetindo com velocidade estonteante. Pequenas pontas de vidro esparramadas sobre a colcha da cama, frases incompletas sendo refletidas no teto, passando pela madeira do forro como legendas de um filme incompreensível, exibidas para ninguém, traduzindo nenhuma imagem. Coleando sobre os degraus da porta do fundo, a Cascavel pergunta-se sobre o que tudo aquilo poderia significar. Em sua capa os sete selos rompidos nada exibem, o livro se abre e, ao invés de suas páginas, o que assoma é um abismo profundo, inexorável. Acima do céu, o Tesseract rodopia em torno de seu próprio eixo feito um sol sem calor nenhum. A Cascavel mergulha no penhasco escarpado das páginas do livro. Enquanto os guizos de sua cauda ainda estão visíveis e o restante de seu corpo é engolfado pelas profundezas das páginas, o livro desaparece, desintegrando-se no nada.
(Fragmento de Não Há Nada Lá)


