Discute-se para saber em que medida a televisão exacerba a violência, até que ponto desestimula a leitura e o quanto banaliza o sexo. Nunca se chegou a uma conclusão, mas uma coisa talvez seja indiscutível: ela fez muito mal ao cinema, ou melhor, ao ato outrora contrito de ver filmes nas salas de cinemas. Ela contribuiu para deseducar o espectador.
Aquele espaço escurinho, que já foi silencioso e sagrado como a penumbra das catedrais, transformou-se numa grande sala de tevê onde as pessoas se sentem no direito de se comportar como se estivessem no sofá de sua casa vendo um programa qualquer. Comentam em voz alta, conversam com o vizinho, comem pipoca com a boca aberta e, claro, usam o celular para dizer a que horas vão chegar ou para perguntar se fulano já jantou.
Achava que era impertinência minha e que eu é que dava azar, mas num jantar recolhi dos presentes as mesmas reclamações. Na conversa, identificamos os vários tipos de mal-educados que cada vez mais frequentam os cinemas. Há os que dialogam com os personagens na tela: ''não vai fazer nada, cara?''; há os que descobrem semelhanças: ''você não acha que ele é parecido com o Faustão?'' (gargalhadas) e os que ficam tentando adivinhar o final: ''ele não vai ficar com ela, não vai mesmo''. Isso na melhor das hipóteses, porque o mesmo sujeito pode pressionar o encosto da frente com os joelhos e, pior, ser agressivo e não admitir ser chamado a atenção.
Um amigo cinéfilo, traumatizado depois de vários incidentes, passou a frequentar salas e horários em que sabe que não há quase ninguém. Virou especialista nesse roteiro. Descobriu em que dias e a que horas tal cinema está mais ou menos vazio. Adora quando chega, pergunta quantas pessoas tem e o porteiro responde: ''ih, só umas dez''.
Numa ocasião, ouviu o seu vizinho de poltrona reclamar que não o deixavam continuar conversando em voz alta: ''vou ter que desligar porque tem um estressado aqui do meu lado''. Quer dizer: para ele, falar alto ao celular era normal; o errado, o chato era quem queria silêncio para ver o filme.
Há poucos dias, quase aos gritos, uma senhora respondeu a quem lhe pedia silêncio: ''não estou falando com você!'' Alguém contou o caso de um pit-boy que reagiu assim a um ''psiu'': ''psiu é a pqp, os incomodados que se mudem''. Na sua lógica troglodita, os outros tinham de ir embora para, mais à vontade, ele continuar incomodando.
O estranho é que quando a luz se acende e você os olha, são em geral tipos que aparentemente foram à escola, que provavelmente vão pegar o carro importado e com certeza irão jantar num restaurante chique, onde, aliás, continuarão falando em voz alta. Mas aí não se pode culpar a televisão.
Texto publicado no jornal ''O Globo'' em 5 de fevereiro de 2005.(Reprodução autorizada pelo autor)

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