Em ‘‘O Ateliê de Giacometti’’, publicado pela Cosac & Naify, o escritor francês Jean Genet penetra com personalidade no universo do escultor Alberto Giacometti
A experiência de ler certos livros se parece com pequenas e simples coisas. Como acordar cedo para lavar roupa, abrir a torneira do tanque e, durante a espera em enchê-lo, ficar olhando algum ponto fixo do quintal. Ficar olhando apenas para iludir os olhos, ouvir a água caindo, borbulhando como cachoeira. A mente vagando por lugares pouco conhecidos, onde o tempo espalha sua neblina.
De volta à realidade imediata, a primeira constatação revela um tanque que transborda. A água caindo, escorrendo pelo chão formando pequenos rios de movimentos. Formas líquidas desenhadas pelo acaso, claramente superiores ao erro de não fechar a torneira para evitá-las. A sensação de beleza despertada por esses desenhos aquáticos efêmeros é muito semelhante à experiência de ler certos livros.
Esse é o caso de ‘‘O Ateliê de Giacometti’’, de autoria do escritor francês Jean Genet (1910 - 1986). Recém-lançado pela editora Cosac & Naify, a obra é um encontro de dois gigantes da arte do século 20, Genet e o artista plástico suíço Alberto Giacometti (1901 - 1966).
A história do livro começa em 1954, quando Giacometti conheceu Jean Genet. Impressionado com a fisionomia do escritor, sua enorme cabeça redonda coberta por uma calvície desértica, resolveu retratá-lo em seus quadros. Genet posou para Giacomertti por alguns anos e desse contado nasceu uma amizade fortificada pela identidade que cada um possuía com o trabalho do outro.
Desse encontro nasceu dezenas de quadros e o texto ‘‘O Ateliê de Giacometti’’, publicado originalmente em 1957. A edição da Cosac & Naify vem acompanhada de belas imagens do fotógrafo Ernest Scheidegger retratando o trabalho de Giacometti em seu ateliê de Paris.
Alberto Giacometti é considerado um dos escultores mais originais do século 20. Embora tenha se ligado ao movimento surrealista na década de 20, criou uma linguagem própria que encontrou eco na filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre. Suas pinturas são constituídas basicamente de retratos de amigos e parentes. Artista obcecado, procurava apresentar o ser humano, segundo suas próprias palavras, através de ‘‘construções transparentes’’.
Em ‘‘O Ateliê de Giacometti’’, Jean Genet apresenta sua leitura da obra do escultor a partir de seus próprio sentimentos e sensações. Não como crítico de arte ou historiador estético, mas como um poeta que penetra na obra de outro artista utilizando seus próprios instrumentos empíricos, sua própria visão de mundo: ‘‘A beleza tem apenas uma origem: a ferida, singular, diferente para cada um, oculta ou visível, que o indivíduo preserva e para onde se retira quando quer deixar o mundo para uma solidão temporária, porém profunda.’’ Para o escritor, Giacometti soube afastar a perturbação de seu olhar ‘‘para descobrir o que restará do homem quando as máscaras forem retiradas’’.
Jean Genet é um caso raro da literatura mundial. Nascido em 1910, filho de pai desconhecido, foi abandonado pela mãe com poucos meses de vida. Viveu até os sete anos de idade num orfanato, época em que foi adotado por um casal de camponeses. Sua primeira façanha, no início da adolescência, foi roubar os próprios pais. Conseguiu sair do reformatório no qual foi confinado alistando-se na Legião Estrangeira, de onde deserdou logo em seguida.
Homossexual declarado, levou uma vida de crimes e assaltos. Como mendigo e ladrão vagou por vários países da Europa sem residência fixa. Começou escrever na cadeia, local onde passou parte de sua existência. Romances como ‘‘O Milagre da Rosa’’ (1946), ‘‘Diário de um Ladrão’’ (1949) e ‘‘Nossa Senhora das Flores’’ (1942) e peças teatrais como ‘‘As Criadas’’ (1947) e ‘‘O Balcão’’ (1948) tornaram-se obras reveladoras da literatura francesa do século 20.
Em 1948, Jean Genet, cumprindo nova pena por roubo, foi condenado à prisão perpétua. Um grande movimento, liderado por escritores como Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Jean Cocteau e André Gide, conseguiu reverter a condenação, mas Genet não tinha mais interesse pela literatura. Seu ódio contra a sociedade, uma das mais fortes características de seus escritos, tinha perdido a força. Utilizando a literatura para expressar seu ódio por uma sociedade que o havia recusado e maltratado, havia se tornado um homem famoso, um escritor respeitado. Ironia do destino? Talvez. Mesmo assim, com a sociedade assimilando os ataques contra ela, a obra de Jean Genet permaneceu em pé, forte em sua poética, verdadeira em seu espírito.
• ‘‘O Ateliê de Giacometti’’ - de Jean Genet, fotografias de Ernst Scheidegger, Editora Cosac & Naify, tradução de Célia Euvaldo, 96 páginas, R$ 21,00.

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