São Paulo, 16 (AE) - Apesar da dificuldade para captar recursos por meio da Lei do Audiovisual (o mercado está retraído e quase ninguém está investindo em cinema), Rodolfo Nanni segue colocando dinheiro do próprio bolso na produção de "Tarsila, o Olho Antropofágico". Em junho, o diretor de "O Saci" seguiu para a França. Ficou três semanas em Cannes e desde ontem está em Paris. Nanni passou o período na Côte dAzur hospedado na casa da escritora Karine Douplitzky. É a roteirista francesa de "Tarsila". Ligada ao filósofo (e ex-guerrilheiro) Régis Debray
ela é diretora de documentários para a TV francesa e integra o grupo de estudos de midiologia do antigo parceiro do Che nas selvas da Bolívia.
Karine está encantada com o trabalho. Na quarta à noite, conversou pelo telefone com a reportagem da Agência Estado. Havia concluído à tarde mais uma versão do roteiro. Ela conta como chegou ao projeto: "Não conhecia o Rodolfo pessoalmente, mas fui cooptada por Guy Perol, que está interessado em bancar parte da produção". Ele achava que, sendo um filme sobre uma mulher tão poderosa, na vida e na arte, "Tarsila" precisava de um olhar feminino. Foi Karine quem deu ao filme o subtítulo "LOeil Antropophague".
A roteirista conta que chegou ao cinema e à filosofia a partir das ciências exatas. Cursou Engenharia de Sistemas, mas há alguns anos resolveu mudar radicalmente. Virou roteirista e diretora de cinema, integrou-se ao grupo de Debray em torno da Révue Médiathique, que existe para discutir a ideologia da mídia. Sobre Tarsila do Amaral, Karine é sincera: conhecia pouco
só o que viu na Bienal. "Sabia vagamente do modernismo brasileiro, mas fui apresentada à personagem pelo Rodolfo". Apaixonou-se imediatamente. "Tarsila não foi apenas uma mulher forte na sua arte; foi também uma mulher forte na vida, embora tenha escolhido manter-se um pouco à sombra de Mário e Oswald de Andrade".
Eles eram os porta-vozes do grupo que fundou a Semana de Arte Moderna de 1922, mas o fato de Tarsila ter-se colocado um pouco à sombra não significa em absoluto que fosse uma mulher submissa ou inferiorizada intelectualmente. "Quanto mais me aprofundo na mulher e na artista, mais descubro coisas que ressaltam sua estatura humana e moral". Karine admite que está fazendo uma leitura pós-feminista de Tarsila. "Estou trazendo a personagem para o presente, até como forma de discutir no filme o processo de globalização que estamos vivendo".
Ela escreve em francês. Lamenta não falar português. Seu roteiro, escrito em parceria com Nanni (que fala fluentemente francês - estudou pintura e cinema na França), depois será vertido para o português. Parte, pelo menos, pois o filme também cobre os anos em que Tarsila viveu em Paris, estudando pintura com Léger e fazendo amizade com Blaise Cendrars. Muitas cenas terão de ser feitas na França e, por isto, tenta tornar possível a co-produção com a França. O fato de Karine haver terminado mais uma etapa do roteiro não significa que ele já esteja pronto. "Tenho trabalhado em cima das pesquisas feitas pelo Nanni, mas eu mesma tenho de ir ao Brasil para aprofundar certas linhas do script".
Ela também acha muito importante conhecer Bete Coelho, a atriz escolhida por Nanni para o papel. Quando deu ao filme o subtítulo de "O Olho Antropofágico", Karine estava ressaltando um dos aspectos que mais lhe interessam no projeto. "É curioso que eu, uma européia, dê a minha versão sobre uma artista que propôs um rompimento radical com as estéticas estrangeiras para criar uma pintura essencialmente brasileira". A Semana de 22 foi marcada pela ruptura. A antropofagia, o tupi or not tupi representavam um grito de protesto de intelectuais cansados de submissão a modelos exóticos. "Era um olhar de protesto do colonizado sobre o colonizador que eu devolvo agora: como o colonizador consegue entender o processo antropofágico?" Ideologia da mídia - O trabalho com Debray ajuda neste processo. Karine explica o que vem a ser a midiologia: "É uma ciência que tenta estudar a ideologia da mídia". Ao atacar a ideologia midiática, o grupo de Debray acusa a televisão por todos os males e pecados, mas Karine reconhece que os males que a midiologia denuncia têm sua fonte nos efeitos perversos da democracia. "O mundo globalizado em que vivemos não é outra coisa senão a planetarização do modo de vida americano, a transformação de uma cultura específica em modelo para todo o mundo".
Alarmado com a impotência diante do problema, Debray agrupou algumas pessoas em torno da Révue Médiathique. Fazem o que o racionalismo francês sabe e gosta de fazer: pensam (e discutem). Já chegaram à conclusão de que, sob o domínio da ideologia midiática, o Estado cultural, funcionando como uma máquina de produzir e consumir bens culturais, tende a substituir o Estado educador. Karine, como Debray, vê nisto uma das tragédias do nosso tempo.
O olho antropofágico de Tarsila vira protesto contra a globalização. É uma discussão que poderá pegar fogo quando o filme ficar pronto. Por enquanto, é só papel. Chama-se justamente "LArt du Papier" (A Arte do Papel) um dos livros que Karine escreveu, discutindo o papel desde as suas origens até as perspectivas para o futuro, num mundo cada vez mais polarizado pela Internet. O papel tem futuro? O cinema tem futuro? Karine vê com apreensão a hegemonia hollywoodiana sobre os mercados mundiais. Acha que é preciso resistir. "Tarsila", como a própria biografada, surge como símbolo da arte de resistência.

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