Escritora faz guia digital infantil para mostra de Picasso
São Paulo, 17 (AE) - Quando Rodrigo, Pedro e Luiza Machado eram pequenos, gostavam de ir a exposições de arte com a mãe. Hoje com 31, 28 e 16 anos, eles e os amigos continuam pedindo a Ana Maria Machado para acompanhá-los em mostras, em uníssono. A curiosidade insaciável das crianças poderia ser explicada pelo trânsito da mãe entre a arte e a língua e a quantidade respeitável de informações sobre as duas áreas que a escritora vem juntando desde antes de publicar seu primeiro livro, isso há 30 anos.
Mas, tratando-se de crianças, o argumento não parece tão convincente quanto uma boa história que possa, como descreve a autora, fazer com que os pequenos olhos passeiem pela obra de arte de forma livre, como é a natureza do olhar infantil.
Para essa natureza, a autora de "Laço de Fita" escreveu o texto que acompanha o roteiro do guia digital de orientação para os pequenos que vão visitar a mostra "Picasso - Anos de Guerra 1937-45", que começa na segunda-feira, no Museu de Arte de São Paulo (Masp).
Assim, os espectadores mirins que acompanharem a exposição com o equipamento de áudio (que será alugado por R$ 5 00) serão apresentados assim a obras como "Banhistas com Caranguejo": "Muitos pintores gostavam de pintar banhistas, porque nos países frios, quando as pessoas não ficam tanto tempo à vontade e de biquíni como nos países quentes, a saída do banho é um dos poucos momentos em que dá para se ver bem as formas do corpo humano... Mas nesse desenho, Picasso não estava preocupado em mostrar os corpos nus de um jeito realista, como se fosse um retrato. Estava muito mais interessado era em brincar um pouco com as formas e os traços..."
"Difícil é escrever sobre arte para adulto, porque tudo fica muito abstrato", comenta Ana Maria, que com bom humor e a simplicidade da descoberta vai desvelando, no decorrer da gravação, questões estéticas (a passagem do artista para o cubismo), históricas (o período da 2ª Guerra Mundial na França e na Espanha). Mais que isso, Ana Maria Machado usa as palavras para despertar a imaginação de seus ouvintes para a entrada no mundo da pintura, da gravura, do desenho e da escultura de um dos artistas plásticos mais importantes do século 20.
"O maior desafio do trabalho é o fato de o público infantil da exposição corresponder a uma faixa larga de idade", observa ela. Por essa razão, as histórias-aula de Ana Maria (tradutora de "Linéia no Jardim de Monet", livro infantil lançado com a exposição do pintor impressionista, há dois anos, no mesmo museu) procuram falar com gente que tem entre 6 e 12 anos.
Para o público adulto, o Masp também vai oferecer um outro guia digital, preparado por Renato Brolezzi, que, assim como a versão infantil, foi editado pelo Masp. As duas gravações seguem o mesmo roteiro de obras. "Isso porque as crianças não vão à exposição sem os adultos", acrescenta Ana Maria.
A escritora diz ainda que não desviou o rumo da prosa do grande foco da exposição, que é o sofrimento do período referido pelo título. Sobre o quadro "Gato Pegando um Passarinho", alusão à opressão franquista, Ana Maria explica aos seus ouvintes que o bichano do mal é uma referência à ditadura na qual o país natal do pintor e grande parte da Europa viviam naquele momento, mas sem perder os aspectos lúdicos. "É especialmente saboroso falar de Picasso para o público infantil, porque ele sempre buscou em suas obras uma atitude espontânea e livre, como são as crianças."





