São Paulo, 10 (AE) - Depois da famosa Guerra de Tróia, no século 12 a.C. (em que gregos e troianos combateram pelo direito de conviver com Helena, a mulher mais linda da Terra, rainha de Esparta, raptada pelo príncipe Páris, de Tróia), todos os combatentes gregos - vitoriosos - iniciaram sua volta às cidades de origem. O poema épico "A Ilíada", de Homero, conta tudo sobre essa guerra.
Já a "Odisséia", que a veterana Ruth Rocha adaptou para a linguagem dos livros infantis, narra justamente a história dos retornos do campo de batalha, mais especificamente a conturbada viagem, cheia de reviravoltas, do herói Ulisses para a sua Ítaca, ilha onde era rei. "Na Grécia, Ulisses era chamado de Odisseu, por isso a história deste livro se chama Odisséia", explica Ruth Rocha aos seus leitores mirins.
O que mais vai atrair o interesse das crianças para o clássico de Homero é, segundo a adaptadora, a esperteza do personagem principal, Ulisses. Mas há outro ímã poderoso na narrativa: a vingança. "A garotada vai ficar presa na história, porque todo caso de vingança é atraente, forte, brutal", diz ela. "A vingança é um prato dos deuses, ainda mais quando a causa é justa".
Antes de começar a escrever, Ruth Rocha percebeu a missão homérica que teria pela frente: percorreu as principais redes de livrarias de São Paulo e não encontrou a "Odisséia" original nas prateleiras nem nos catálogos das editoras. "Foi uma dificuldade", diz. Talvez por contar com a ajuda de Zeus, no alto do Olimpo, tenha conseguido localizar algumas edições antigas: uma da Melhoramentos (mas em texto adaptado), outra da coleção de clássicos das Edições de Ouro (em versos), outra da Editora Abril (em tradução de Antonio Pinto Carvalho), uma da Cultrix e, por fim, a melhor de todas e a mais completa, segundo ela, em edição italiana, traduzida por Rosa Calcecchi Ones. Detalhes - "Faz parte da cultura oral grega contar a história demoradamente, com detalhes, recontar, tornar a contar, repetir e por aí vai", afirma Ruth. "É por isso que o original da "Odisséia" é um texto cheio de repetições e eu as evitei, pois não queria um livro muito longo". O trecho que ela mais fez questão de encurtar, conforme revela, foi o que descreve o Inferno. "Não quis que ficasse muito chocante, como Homero fez questão de deixar", justifica.
O capítulo final também é rápido, porque tem um estilo diferente de todo o restante do poema e muitos estudiosos nem consideram de autoria de Homero. "Quem conhece o original sabe que é um capítulo esquisito, literariamente estranho, por isso resumi ao máximo". Projeto - A sapeca Ruth, agora muito mais próxima da esperteza heróica de Ulisses, segue sua trajetória incansável com mais um projeto em andamento. Ainda sem editora definida, ela e outra craque das letras para a juventude, Ana Flora, estão escrevendo uma coleção de nome "Meninos, Eu Vi", em que os principais fatos históricos serão relatados sob a ótica de crianças.
Ana Flora já está escrevendo o primeiro volume, narrado por uma menina, vizinha de Mário de Andrade, que vai ao Municipal no dia em que seu ilustre vizinho declama o poema "Os Sapos" e inaugura a fase do modernismo no Brasil. Ruth Rocha fica com o segundo volume, em que um garoto do século 17 é convidado a participar de uma bandeira e vê Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, atear fogo em um prato para ameaçar os índios e conseguir dominá-los.
Outro projeto em andamento é a coleção "Comecinho", em que ela exerce, despudoradamente como merece, toda a sua corujice de avó e conta aventuras protagonizadas por seus dois netos, Miguel e Pedrinho. Dois volumes já saíram no fim do ano passado, "O Dia em Que Miguel Estava Triste" e "Quando Miguel Entrou na Escola", pela editora Cállis. Faltam mais dois. As ilustrações são do avô, naturalmente. Palcos - No teatro, o musical "Marcelo, Marmelo, Martelo", baseado em um dos livros mais famosos de Ruth Rocha, segue em cartaz com casas lotadas desde o ano passado. A escritora aprovou a adaptação do diretor Zécarlos Andrade, sobretudo por causa da boa música. Fez carreira na Tom Brasil, no Teatro Jardel Filho e agora fica no TBC até o dia 30.
No sábado, estréia "Procurando Firme", no Teatro da Faap, que também é peça baseada em obra infantil de Ruth. A diretora, Neyde Veneziano, é reincidente nessa história de uma jovem princesa que nada tem de frágil ou submissa. Sua adaptação para o livro já lhe rendeu prêmios em 1987, l989 e l994. "Fiquei feliz em saber que a peça vai voltar, porque a Neyde é impecável", comenta a escritora.
Ruth Rocha dificilmente gosta das adaptações que fazem de seus livros para a linguagem teatral. "Detesto aquelas correrias e gritarias que fazem no palco", conta. "Sou contra os excessos, prefiro a clareza e gosto quando respeitam o tom dos meus livros, a delicadeza de espírito de uma obra literária para crianças".
A escritora comenta, feliz, o sucesso no exterior de sua grande amiga Ana Maria Machado, que acaba de ganhar o Prêmio Hans Christian Andersen, o principal do mundo na área de literatura infantil. "Ana Maria merece, porque é uma mulher brilhante, vive pela Europa fazendo conferências, um orgulho para os brasileiros".

mockup