Kraw PenasAlém de ‘‘Jardim Zoológico’’, o escritor Wilson Bueno está também terminando ‘‘Meu Tio Roseno’’ e comemora sua inclusão no ‘‘Medusário - Muestra de Poesía Latinoamericana’’, publicado no México e distribuído para todos os países de língua espanhola e portuguesaEscritor Wilson Buenoproduz Jardim zoológico
Depois de lançar
‘‘Manual de Zoofilia’’, Bueno retorna
aos bichos com o novo livro:
‘‘Jardim Zoológico’’

Zeca Corrêa Leite
O escritor Wilson Bueno prepara-se para lançar um novo livro pela Editora Iluminuras, ‘‘Jardim Zoológico’’. Ele acredita que até setembro, ‘‘no máximo’’, a obra estará nas mãos dos leitores e em todas as livrarias. O projeto gráfico é de Fê, um dos profissionais mais conceituados do momento. ‘‘O livro se presta muito à coisa gráfica’’, deleita-se.
Bueno recebeu a Folha 2 em seu estúdio na Vila Oficinas, para falar de ‘‘Jardim Zoológico’’, mas emendou com outros assuntos. Ele afirmou que ainda neste ano deverá ser publicado ‘‘Meu Tio Roseno a Cavalo’’, novela que se transformou na atual paixão que o devora nas horas ermas, curvado no computador. Já tem editora interessada em abocanhar a obra.
‘‘Meu Tio Roseno’’ conta as peripécias de um tio materno, falecido ainda muito jovem, que deixou a localidade de Guairá rumo ao Paranapanema, atravessando os rios Piquiri e Ivaí. ‘‘Esse é o arcabouço de uma história, porque o interessante é que ela tem oito céus e cinco entrecéus a cavalo’’, explica Bueno, com sua linguagem pendendo de cenários.
‘‘Cada céu é diferente do outro: tem céus de chuva, de poentes incendiados, de manhãzinha, saindo de Guairá; céu tijolo, ocre, menstro, céu roxo, céu esgarçado, morto de medo, céus mortos de tédio. Cada céu é um capítulo, e cada entrecéu é um capítulo ainda maior’’, detalha.
Outra boa nova que muito o honrou foi sua inclusão no ‘‘Medusário - Muestra de Poesía Latinoamericana’’, publicado no México e distribuído para todos os países de língua espanhola e portuguesa. A fina flor da literatura da América Latina, está na antologia. Representando o idioma português estão três autores: Wilson Bueno com ‘‘Mar Paraguayo’’, ‘‘Catatau’’, de Paulo Leminski e ‘‘As Galáxias’’, de Haroldo de Campos.
Mas, voltando ao ‘‘Jardim Zoológico’’, que está em fase de produção na Iluminuras, o escritor conta que a escolha do tema foi natural devido ao gosto ‘‘muito antigo’’ da zoolatria. ‘‘Tenho um diálogo com essa coisa do bicho mítico, do zoomítico, da zoolinguagem, da zoopulsação, porque nós também somos animais de médio porte’’.
A seguir trechos da conversa em torno da obra, que pelo jeito teatral de Wilson Bueno falar, os bichos parecem que vão pular para dentro do estúdio. Frutos de sua imaginação ganham personalidade, carne, ossos, penas, bicos, cheiros, tal a veracidade do autor.
Onde você foi buscar material para o ‘‘Jardim Zoológico’’?
Eu leio muito, leio tudo. Sou leitor de enciclopédias e, sobretudo, de zooenciclopédias. No micro tenho aves da Ásia, tigres de Bengala; vou juntando essas coisas, fora os livros. É uma coisa que me diverte, sempre me fascinou muito. É óbvio que ‘‘Jardim Zoológico’’ são bichos filosófico-virtuais, ou seja, não existem, nem nunca existiram. Eles passam a existir no momento em que saem no livro. A partir de então irão figurar nos dicionários de zoomitologia, porque estarão existindo na terra dos homens. São bichos arrancados vivos do vício de ser. Eles simplesmente são.
Quantos habitantes têm no seu ‘‘Jardim’’?
São 34, sendo que quatro deles homenageiam os elementos da natureza. Tem o dedicado ao ar, à água, ao fogo e à terra. O ‘‘Jardim’’ é montado assim, nessa ordem.
Quer dizer que quando o livro surgir, esses animais mitológicos estarão sendo batizados?
Claro, porque eles foram arrancados vivos do vício de ser. Eles são animais míticos; estão inscritos desde sempre no seu inconsciente quanto no meu. Eu apenas fui incumbido da tarefa de arrancá-los dessa persistência de não ser. No momento em que o leitor lê e se maravilha com um desses bichos, está dando espaço ao animal neste mundo insensato.
Desses bichos qual aquele com que você mais se identifica, tem um carinho maior?
Gosto muito dos jaguapitãs. Eles têm o poente nos olhos; são lindíssimos, porque são cachorros fulvos. Os índios os invocavam para aqueles que deixavam de ter fé. Então quando o índio ficava abatido, sem fé, sem entusiasmo, o pajé invocava o jaguapitã. Mas como ele é da cor do céu, se confunde com o céu. Então é muito difícil você ver. De repente, quando retoma a fé, aí você o encontra e o vê: todo fulvo e dentro dos olhos traz um poente espraiado.
As crianças vêm melhor esses animais do que os adultos?
Claro. E tem também um animal que só é visto pelos cegos. São os nácares. O último testemunho que se tem dos nácares é de Jorge Luís Borges. Já no final da vida, no seu apartamento em Buenos Aires, Borges tinha um cotidiano muito solitário. Num de seus textos ele narra que num dos momentos em que não enxergava mais nada, estava na sala pensando e viu, entre o sofá e as pernas da mesa, os nácares pululando. Ele dá o testemunho disso.
Quer dizer que este é um zoológico de sonhos?
Sim. Ele tem bichos de sonhos que insistem em indagar o que nós, humanos, estamos fazendo da realidade, da vigília. Se a vigília é a fraternidade no coração dos homens, se é o fazer, o transformar, o rebelar-se. Esses bichos insistem e querem de nós uma atitude. Querem de nós um vigor frente à vida, um entusiasmo, um desejo de transformação.
Desde quando você convive com eles?
Acho que desde os dois anos de idade, quando certo dia olhei para o céu em Jaguapitã, a cidade onde nasci, e vislumbrei naquele céu de interior brasileiro, uma grande ave que se sustentava única e exclusivamente pelo seu poder de sonho, de causar espanto e magia em quem a visse. Eu me lembro que perguntei ao menino do meu lado, se ele estava vendo. Ele disse: ‘‘Estou vendo mas é de outra cor’’. Eu não tinha dito para ele a cor em que eu via esse grande bicho de asas, no céu de Jaguapitã, em 1951.
Essa ave seria o dom da poesia?
Eu entendo como sendo, exatamente, o dom da poesia. O dom da graça de existir.
Quanto tempo você levou escrevendo o ‘‘Jardim Zoológico’’?
Uns três anos: tomando, retomando, jogando muitos bichos fora. Fiquei com os que realmente me agradaram.
Esses bichos de certa forma o modificaram?
Sem dúvida alguma. Cada um deles, dentro de sua pulsão, me ajudaram algumas vezes, em momentos difíceis da vida, a atravessar os rios e as veredas. E sempre me fizeram melhor. Espero que isso chegue aos leitores. Essas pessoas que pegarão o livro e às três horas da manhã poderão se assustar com os guapés e não conseguirem mais dormir, ou morrer de pena dos tiguaçus e passarem a noite inteira chorando, sem conseguir conciliar o sono de tanta piedade desses seres monstruosos com seus narizes em carnes vivas, saindo pela solidão do chaco paraguaio, nos anos ímpares.
A sua alma estende-se nesses animais?
Estende-se, desdobra-se. E eu os quero todos, assim como se pudesse abraçá-los a um só tempo, mesmo os mais terríveis. Porque há bichos terríveis no ‘‘Jardim Zoológico’’. Tem os que entram dentro das vaginas das índias que dormem desprevenidas, cavam lá dentro e arrancam os fetos, desesperados, para comê-los.
Haveria alguma coisa que diferenciasse este de outros livros seus?
Este é completamente outro livro. Ao mesmo tempo que, de certa forma, retomo velhos temas - como o ‘‘Manual de Zoofilia’’, que traz 30 bichos reais -, faço outra coisa, não sei se melhor ou pior. Mas é completamente diferente dos demais.

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