São Paulo, 11 (AE) - Walmor Santos, 49 anos, o padeiro das letras gaúchas, como define Altair Martins, é na verdade um homem dos sete instrumentos. É editor, proprietário da pequena WS Editor que, em menos de dois anos de atividades, já tem em seu catálogo 58 títulos - grande parte deles de autores absolutamente, ou quase, desconhecida. Ela é, além disso, a única editora do Brasil que não paga direitos autorais, ao contrário, ganha comissão dos autores - a maior parte dos ganhos ficando com eles. Walmor é dono, ainda, de uma microempresa, criada para gerir o projeto "Autor na Sala de Aula", que se dedica a lançar novos escritores e a levá-los às escolas gaúchas.
Em seis anos, já levou 38 autores a uma média anual de 250 escolas. É editor de uma revista literária, a premiada "Blau", cujo número 29 chega às livrarias ainda este mês. É ainda escritor em carreira ascendente, fato que se atesta em seu mais recente romance, "A Noite de Todas as Noites" (WS Editor, 150 págs., R$ 18,00), um corajoso relato de fundo confessional em que, expondo-se com um ardor bastante raro, se defronta com os demônios de suas aspirações de escritor. E é, por fim, mas não menos, presidente da Associação Gaúcha de Escritores, co-patrocinadora, em junho, de um 1.º Encontro de Escritores das Mercocidades, celebração das letras no espaço do Mercosul.
Tudo começou, provavelmente, com o projeto "Autor na Sala de Aula", iniciado em 1995. Walmor já escrevia contos e novelas. Criou-o, inicialmente, só para que pudesse realizar a idéia de viver de literatura, trabalhando os próprios livros num esquema comercial paralelo. Nesse período inicial, ele começou a participar de um projeto chamado "Autor Presente", do Instituto Estadual do Livro, que já existe há 27 anos e é o responsável pela introdução maciça da literatura gaúcha nas escolas do Estado, criando um mercado para a literatura gaúcha.
"Aí entendi que, se eu aperfeiçoasse esse projeto oficial, poderia formar um público leitor e então viver de escrever". Começou oferecendo seus livros nas escolas onde fazia palestras, primeiro a um preço simbólico, o equivalente a R$ 3 ou R$ 4 nos padrões de hoje. Aos poucos, subiu esses valores a níveis mais razoáveis. Nesses seis anos de trabalho, Walmor já esteve pessoalmente em 450 escolas de todo o Rio Grande, pilotando o próprio automóvel abarrotado de livros, para vender aproximadamente 60 mil exemplares de seus 8 livros. A partir daí, outros escritores se agregaram ao projeto, sem que ele tivesse a idéia de tornar-se empresário.
"Eu só pensava em servir os amigos", diz. Foi só em 1998 que decidiu registrar uma editora, a WS. Atualmente, 38 escritores e 60 títulos estão envolvidos no projeto "Autor na Sala de Aula". Mesmo assim, Walmor não parou de escrever. "A Noite de Todas as Noites", seu livro mais recente, é também seu livro mais visceral. "Aqui o autor é um autor que se desnuda, embora não seja a minha história", observa. "Esse é o meu livro, eu sou esse personagem, sem que a história seja minha".
O primeiro título que deu ao livro foi "Os Demônios de WS" - já que desejava assumir claramente que se tratava de um texto de purgação, de exorcismo. "Eu vejo a literatura como uma autoterapia", afirma. "Para mim, ela é um instrumento de reorganização interior". Mesmo escrevendo e tendo como vender o que escrevia, Walmor sentia que ainda restava um outro problema: o da divulgação. Foi nesse momento que decidiu criar o jornal literário "Blau", cujo nome vem de Blau Nunes, o personagem do escritor gaúcho João Simões Lopes Neto que, apesar de esquecido nacionalmente, é considerado por muitos como o maior contista gaúcho no século.
"A idéia central do jornal, que depois se transformou em revista, foi a de criar um espaço para o autor gaúcho, sobretudo para os pouco divulgados", recorda. "Blau" surgiu em outubro de 1994 e está com 29 números. A partir do número 16, tornou-se uma revista que tem circulação nacional. O próximo número está previsto ainda para este mês. A revista "Blau" ganhou por três vezes o Prêmio Açorianos de Mídia Cultural Impressa, do RGS, concedido pela prefeitura de Porto Alegre e considerado o mais importante do Estado no gênero. Walmor Santos não se surpreende por ter tido a sorte de revelar um autor da categoria de Altair Martins. Ajudou também a revelar, ou a fixar a imagem, de autores como Amilcar Bettega Barbosa, Fernando Neuearth, Alexandre Alves, Haroldo Ferreira, Jaime Vaz Brasil, Lélio Almeida, Celia Maria Maciel, Luis Dill, entre outros. No seu catálogo pode exibir ainda nomes de prestígio, como o de Charles Kieffer. Ao eleger-se, em novembro, presidente da Associação Gaúcha de Escritores, ele encontrou uma entidade praticamente desativada. "A tal ponto que, enquanto todo mundo transfere o cargo com dívidas, o presidente anterior me passou a associação com um caixa positivo, que ele nem sabia que tinha", diz, constrangido.
Em março, a associação promove um encontro gaúcho de escritores. Em junho, vai co-patrocinar o 1.º Encontro de Escritores das Mercocidades. "Estou trabalhando 16 horas por dia e há dias em que me levanto às 4 ou 5 horas da manhã e ainda trabalho aos sábados e domingos", diz. "Mas estou feliz". E, apesar de tudo, ainda se dedica a escrever um novo livro, "A Arte de Enganar o Medo", exercício que, em seu caso, parece absolutamente desnecessário. (J.C.)

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