A experiência do escritor Guimarães Rosa como médico fez com que ele se deparasse com lugarejos inexistentes no mapa, perdidos em longínquas paragens. Enquanto exercia a medicina, consta que Rosa quase desmaiava ao ver sangue. Mas a passagem pela medicina não foi em vão. Ficou impregnado com a oralidade dos sertanejos, e reinventou nosso idioma. Rosa se imortalizou como escritor ao inaugurar o sertão metafísico, no livro de contos ‘‘Sagarana’’. ‘‘Sarapalha’’ é um dos contos deste livro publicado em 1946.
‘‘Sarapalha’’ retrata a visão de Guimarães Rosa como médico, conhecedor profundo das comunidades esquecidas no tempo e espaço. A cidadezinha de Sarapalha foi praticamente dizimada pela malária. Neste mundo de meu Deus, em terras que não valiam mais nada, o domínio era apenas do mosquito transmissor da danada, da intermitente. Esse ser quase invisível era soberano naquelas paragens, e Rosa esmiuçou esse poder. O médico se revela em outra dimensão, pois vê o doente, sente por ele. A miséria do lugar é descrita numa linguagem vigorosa.
Primo Argemiro (o agregado) e Primo Ribeiro (o abandonado) sofrem com a maleita numa fazenda desmantelada. Quando a tremedeira chega emergem os delírios na bambeza do corpo, os olhos ficam desbrilhados. E a vidinha é repensada. Obstinados, os dois mal se aguentam em pé, percorrem os caminhos da lembrança. Eles são socorridos pela Negra Ceição, ajudante que traz o café e cachaça com limão.
Nessa situação, Argemiro confessa seu amor platônico pela mulher de Ribeiro, que fugiu com um boiadeiro de Iporanga. Agora, ela está inacessível aos dois. Só restam as lembranças, refém da maleita. A traição da mulher, a revelação do amigo chegam a galope, devagarinho, como a malária. Não há como fugir de Sarapalha, nem do passado. (F.F.)

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