Com camisa-de-força, Austragésilo Carrano Bueno protestou ontem em Curitiba contra a decisão da Justiça de retirar do mercado seu livro ‘‘Canto dos Malditos’’
Curitiba - O autor do livro ‘‘Cantos dos Malditos’’, Austragésilo Carrano Bueno, fez um protesto ontem contra a decisão judicial que determina a apreensão de todos os exemplares da atual edição da sua obra, lançada pela Editora Rocco. O livro inspirou um dos filmes nacionais mais premiados no ano passado, ‘‘Bicho-de-Sete-Cabeças’’, dirigido por Laís Bodansky.
Em frente ao Tribunal de Justiça do Paraná, em Curitiba, o escritor vestiu uma camisa-de-força, colou um esparadrapo na boca e queimou alguns exemplares da obra, que já está na sua nona edição. O objetivo, segundo o escritor, foi chamar atenção para a censura a que ele está sendo submetido. ‘‘Desde os tempos da Ditadura, a Justiça não pedia a retirada de um livro das prateleiras’’, reclamou.
Na década de 70, aos 17 anos, o escritor foi internado em um hospital psquiátrico do Paraná depois que o pai descobriu que ele fumava maconha. A rotina vivida na instituição, que incluia eletrochoques e medicamentos pesados, segundo narra, inspirou o livro ‘‘Canto dos Malditos’’. A obra serviu de roteiro para ‘‘Bicho-de-Sete-Cabeças, protagonizado por Rodrigo Santoro. O longa já ganhou 44 prêmios nacionais e internacionais.
Mas o mesmo êxito do filme não vem sendo obtido pelo livro. No último dia 30 de abril, decisão da 1ª Câmara Civel do Tribunal de Justiça do Paraná determinou apreensão de todos os exemplares da obra. O pedido para recolhimento foi feito por Ilka Maria Guimarães Paolini e Luiz Cláudio Surugui Guimarães, herdeiros do médico Alô Guimarães. O psiquiatra, já morto, foi diretor do Hospital Psiquiátrico Bom Retiro, uma das instituições em que Carrano ficou internado.
O autor denuncia ter passado por um tratamento subumano e transformou a sua experiência numa luta contra os hospitais psquiátricos do Brasil. Ele integra o Movimento Antimanicomial, que é contra existência de manicômios e diz que a censura do livro não vai intimidá-lo.
Essa não é a primeira vez que Carrano briga na Justiça por causa da sua história. Há quatro anos, o autor de ‘‘Canto dos Malditos’’ entrou com a primeira ação indenizatória contra a Federação Espírita do Paraná, responsável pelo Hospital Psquiátrico Bom Retiro; contra a família do médico Alô Guimarães, acusado de aplicar 21 sessões de eletrochoque no paranaense; contra o Hospital NeuroPisiquiátrico do Paraná, em Piraquara e contra o médico Alexandre Secsh. O autor perdeu a sentença e foi condenado a pagar R$ 60 mil à família do médico, mas avisa que vai recorrer.
Em outra ação, o médico Alexandre Serch pede uma indenização de R$ 5 mil, para cada vez que for citado na imprensa por Carrano, mas a medida ainda não foi julgada. ‘‘Já que eles querem me calar, vou usar um esparadrapo nesse protesto’’, esclareceu o escritor.
O livro já foi editado pela Editora da UFPR e pela Editora paulista Lemos. Segundo a Rocco, editora atual, essa é uma edição mais ‘‘branda’’ que as anteriores. Mas depois do estréia do filme que deu projeção à obra, a família decidiu pedir o recolhimento do livro. A editora vê com cautela a medida judicial, mas avisa que a orientação é recorrer em todas as intâncias possíveis.
Segundo informou a editora, o primeiro comunicado da Justiça tinha um erro de redação e não citava o nome de seus advogados na pauta de julgamento. Por isso, o advogado da editora em Curitiba, Eduardo Virmond, entrou com embargos declaratórios. Virmond não foi encontrado pela reportagem da Folha, mas o advogado da editora no Rio de Janeiro, Pedro Henrique de Miranda Rosa, diz que a empresa não foi intimada oficialmente da decisão do recolhimento da obra.
Para o autor do livro, as decisões judiciais são uma motivação para ele continuar denunciando a falência dos tratamentos psiquiátricos adotados no Brasil. ‘‘Eu não escrevi meu livro para denegrir ninguém e sim para mostrar a violência sofrida nos hospitais psquiátricos’’, disse. Carrano já prepara o seu terceiro livro, ‘‘Por enquanto, filhos da noite’’, que deve ser lançado até o final do ano, ainda sem editora definida. No novo livro, ele narra as situações vividas por prostitutas e garotos de programa. ‘‘Pode ser encarado como ficção, mas é baseado em fatos reais’’, avisa.

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