São Paulo, 25 (AE) - Para responder definitivamente a leitores, críticos e jornalistas que insistiam em perguntar por que escrevia, José J. Veiga preparou um texto em que resumia: "Escrevo por compulsão". Ele começou a escrever tarde - lançou o primeiro livro, "Os Cavalinhos de Platiplanto", em 1959, aos 44 anos, e tornou-se um obstinado pela literatura. Publicou 12 livros e vendeu cerca de 600 mil exemplares no Brasil e nos Estados Unidos, Inglaterra, Suécia, México, Espanha, Noruega e Portugal. O escritor morreu no domingo, aos 84 anos, de câncer no pâncreas.
Não poder corresponder à compulsão de escrever era o que mais o incomodava nos últimos meses. Em entrevista em junho, Veiga queixava-se de ter sido pego de surpresa por uma infecção no pâncreas em outubro. Teve de ficar dois meses e meio no hospital. "Descobri de repente que estava velho", dizia. "Nunca tinha sofrido nada além de uma gripe". Não era a doença que o incomodava, mas as impossibilidades que ela lhe trazia. Deveria fazer repouso. Não mais poderia dar suas voltas de metrô. Morava num apartamento na Glória desde os anos 50, com Clérida, pintora, com quem era casado havia 47 anos.
Nesses passeios, às vezes Veiga tinha boas surpresas, como o dia em que viu um jovem cabeludo, de camisa preta surrada
jeans desbotado, entrar no metrô, sentar-se ao seu lado, abrir a mochila e sacar um livro. Era "A Máquina Extraviada", seu terceiro livro, lançado em 1967. "Tive vontade de dar um abraço no rapaz", contou, sorridente, orgulhoso.
Veiga nasceu em 1915 numa fazenda em Goiás. Começou a trabalhar bem jovem, no comércio. Mais tarde, no Rio, virou propagandista de laboratórios farmacêuticos. Mas, à oferta de um salário duas vezes maior, foi para a Rádio Guanabara. Depois, foi redator da "Revista Serviço Público" e trabalhou na BBC de Londres. O primeiro livro, "Os Cavalinhos de Platiplanto", chegou à editora recomendado por um amigo ilustre: Guimarães Rosa.
Eles se conheceram a partir da amizade das mulheres, que levavam os gatos de estimação no mesmo veterinário. Passaram a almoçar juntos aos domingos. Conversavam sobre assuntos variados
de política a coisas do cotidiano. Veiga costumava dizer que escrever lhe causava ao mesmo tempo sofrimento e prazer. O sofrimento vinha da busca da palavra certa no lugar exato. Para explicar melhor, definiu-se como o cobrador literário da sua lotação literária. "Depois de aprontar um texto, eu o releio e vou expulsando as palavras que não pagaram entrada", dizia. Era severo com as palavras, algumas peraltas, que cismavam em entrar de penetra nos seus textos. "Não se pode deixar as palavras sobrando, se apertando, fora de lugar". O prazer, ele o encontrava mais tarde, com a obra publicada e, mais ainda, depois de bem recebida pela crítica.

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