São Paulo, 21 (AE) - A vida de Cristo vem inspirando escritores e cineastas marxistas ou ateus há anos. De Kazantzakis a Saramago, de Pasolini a Scorsese, o nome de Jesus tem servido a ensaios heterodoxos sobre a divindade de um homem seguido por profetas, leprosos, santos, loucos e prostitutas. O escritor inglês Jim Crace, nascido em Birmingham há 53 anos, seria apenas mais um nessa lista. Ateu de segunda geração, Crace escreveu um livro sobre Jesus Cristo que só não virou peça de escândalo porque os cristãos viram nele uma mensagem positiva de sua fé. Assim, "Quarentena", lançado pelo autor no Salão Internacional do Livro, é menos polêmico e escandaloso do que talvez pretendesse Crace.
Isso não tira seu mérito. A convite do British Council e da Geração Editorial, Jim Crace esteve no Brasil para cumprir uma extensa agenda de compromissos. Casado, dois filhos adolescentes, ele esclarece que não pretende ofender os cristãos ao matar Jesus de fome e sede no fim de seu livro. O título, "Quarentena", revela o propósito de seu autor: provar que Cristo, como qualquer outro homem, não sobreviveria a uma temporada de 40 dias no inferno do deserto, povoado por cobras, escorpiões e ladrões.
Parábola - Cristãos e marxistas, segundo Crace, adoram o livro por diferentes razões. Os primeiros viram no livro uma parábola sobre o sacrifício de um homem submetido a tentações de toda espécie. Os marxistas identificaram na figura do oportunista e repulsivo mercador Musa, que planeja exibir Jesus numa feira de prodígios, a personificação satânica de líderes religiosos que transformam tudo em mercadoria. Crace jura que não escreveu um livro para agradar cristãos ou marxistas. Aliás, nem pensava em Jesus quando sentou para escrever sua quinta novela.
"Amigos de Israel enviaram um postal com a imagem de uma caverna onde Jesus teria meditado e eu, que pretendia escrever um livro sobre um asilo de loucos em Birmingham, percebi o quanto essa caverna se parecia com os quartos em que os alienados ficavam confinados na minha cidade", conta. "Não decidi contar a vida de Cristo segundo as leis da literatura naturalista, mas transportar uma história de sofrimento no século 20 para o mundo arcaico", conclui.
Quinto personagem de "Quarentena", Jesus entra apenas no sexto capítulo, descrito como um viajante galileu não familiarizado com as privações do deserto, mas que deposita confiança em Deus, "como fazem todos os jovens". Bem, nem todos. Seus filhos, por exemplo, foram criados como ateus e não sofrem com a ausência do pai celestial. Pelo menos é o que pensa Crace. O grande paradoxo é que os leitores cristãos dizem que ele estava em estado de graça quando escreveu o livro. "Não sei se o que chamam de graça divina pousou sobre meu ombro, mas garanto que também não pretendi escrever um panfleto ou manifesto político contra o cristianismo."
Ciência e fé - A repercussão do livro, de qualquer modo, garantiu ao escritor o lançamento da próxima novela, "Beeing Dead", previsto para setembro, na Inglaterra. O tema do livro: um homem que morre sem Deus, mas não parece preocupado com isso. Apesar de comparado a Beckett pelo crítico da revista "Time", Crace esclarece que nada tem a ver com o dramaturgo irlandês, encarando os personagens de "Esperando Godot" como seres confinados numa arena para debater exclusivamente as idéias de Beckett. Ele, ao contrário, não quer o mínimo contato com seus personagens. "Você não vai encontrar uma única linha em todo o livro que faça referência à minha vida ou sirva de veículo para auto-análise", diz.
Crace despreza escritores que transformam a literatura numa sala de espelhos. "Conrad é grande, mas insuportável por isso", critica. "Gosto de livros que abandonam o autor, que adquirem vida própria", justifica, incluindo aí o caso de "Quarentena", que, efetivamente, passou a ter vida autônoma, transformando-se em livro religioso para os cristãos. "A ciência destruiu a fé religosa, mas as perguntas que os cientistas fazem são pertinentes", observa, definindo seu ateísmo como "uma espécie de misticismo". Não, ele não aceita o título de visionário. Detesta essas coisas. "Nem grande autor eu sou, porque tenho dois filhos e um jardim para cuidar, que já me tomam muito tempo."
Milagre - Há muito ele abandonou os sonhos de grandeza. "Ninguém me conhece em Birmingham ou sabe que ganho a vida escrevendo", diz. Os prêmios que recebeu pelo livro e a polêmica que ajudou a empurrar suas vendas são acidentes de percurso, não obra de Satanás. Com o Diabo, diz Crace, ainda é possível negociar e depois exorcizar. Deus, porém, "é implacável e instável", escreve em seu livro, que termina com a ressurreição do Cristo. Um ateu que acredita em milagres? "O que posso fazer se a ficção adora a ambiguidade?", responde.
Em sua defesa Crace poderia invocar o exemplo de escritores como Saramago, outro ateu preocupado com a vida de Cristo, mas o escritor inglês não é seu leitor e quer distância de discussões teológicas. Gosta mesmo é de uma boa história e sabe que tem talento para contar uma. Para seus leitores, isso é o suficiente.

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