São Paulo, 02 (AE) - Por vários anos, Kubrick esteve com os olhos bem abertos para a qualidade literária de Arthur Schnitzler, o médico vienense apaixonado pela psiquiatria incipiente, pelas mocinhas pobres e dadivosas de Viena e também pela morte, a quem foi apresentado em seus estudos de anatomia e cujo cheiro adocicado pairava no fim de século. "É difícil achar um escritor que tenha entendido tão bem a alma humana e que possua uma compreensão aprofundada sobre como as pessoas agem, pensam e realmente são, sem falar de seu ponto de vista onisciente, simpático, embora cínico", já elogiava, em 1960, numa entrevista, o diretor de "Lolita" (o amor por moçoilas é tema caro aos schnitzlerianos de carteirinha).
Afinal, Schnitzler conhecia bem o que falava, um obcecado pelas mulheres (a ponto de deixar dúvidas se corria atrás das saias ou se queria vesti-las) e pelo amor que adorava mostrar, em tintas veristas, como eram reprimidos os seus colegas de sexo e época, cuja única função na vida era conquistar as suesse maedel (um tipo que ele imortalizou), as pequeninas burguesas acessíveis em troca de algum dinheiro e boa bebida. Um vício que foi o seu maior prazer e sempre predominou no "trio eterno que continha o mundo", como definiu num poema, e unia amor, jogo e morte, seus tópicos favoritos.
Mas o respeito que Freud tinha pelo escritor (confessou que invejava seus livros) deu a ele, na posteridade, maior amplidão e densidade do que sonhara em suas novelas. Há muitos triângulos, alguns delírios eróticos mesclados com paranóia (como na Breve Romance de Sonho), um toque de homossexualismo e só. É perigoso cair na tentação de fazer do romancista o precursor da psiquiatria (em especial nessa novela, tão metafísica). Foi um grande criador de diálogos, um soberbo observador das nossas fraquezas, mas boa parte de seus temas já virou história. Ou já o eram no momento em que tanto preocupavam os vienenses perdidos num mundo de ilusão estética, melancólicos e felizes ao mesmo tempo. Assim, piano no entusiasmo por sua visão da morte.
É preciso igualmente não derramar lágrimas em demasia, pois o maior pecado em Viena sempre foi levar a existência a sério demais, esquecendo-se do spass, do humor, do riso. O próprio Kubrick viveu a dúvida de se "Breve Romance de Sonho" é drama ou comédia (pensou em escalar Steve Martin), deixando claro saber que a cosmovisão de Schnitzler, embora cética, transbordava ternura pelos pobres diabos que, tal qual ele, tentavam sobreviver ao apocalipse joyeuse. Como nós, hoje.

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