Às vésperas do surgimento de uma nova geração de ficcionistas – que Moacyr Scliar chama de ‘‘escritores de computador’’ – o livro, enquanto objeto de papel, apesar de deteriorável, nada fica a dever à máquina. O bom e velho romance com certeza permanecerá, mas as enciclopédias darão lugar ao CD-rom. É o que já está acontecendo. Porém, num futuro próximo, o papel deverá ter uso ‘‘racionalizado’’.
A luz ofuscante do sucesso não significa necessariamente que a intensidade seja símbolo da eternidade. Humberto de Campos, que era um nome sagrado em seus tempos de estudante, desapareceu. José Mauro de Vasconcellos, o autor de ‘‘Meu Pé de Laranja Lima’’, é vagamente lembrado por essa obra, mesmo tendo escrito uma dúzia de outros títulos. ‘‘Era um homem que gostava de contar histórias’’, define Scliar. Paulo Coelho tende a seguir o mesmo caminho.
Cada qual surgiu em períodos específicos, trazendo uma forma de alento que o público precisava naquele momento. No caso de José Mauro explica-se a fragilidade que acometia o homem no final dos anos 60, com a asfixia da ditadura e o mundo voltando-se cada vez mais aos temas urbanos.
A maneira da narrativa simples sobre pessoas da periferia, foi uma comoção só. Paulo Coelho, com suas entidades espirituais, surgiu ‘‘na hora da descrença’’. Daí o abalo sísmico a obras sem qualidade literária. Esse interesse, porém, não é permanente.
‘‘Quando comecei a escrever a moda era o realismo mágico, lançado por Gabriel Garcia Marques’’, recorda. No Brasil os dois maiores expoentes eram Murilo Rubião e José J. Veiga (este tendendo mais aos temas políticos). Scliar andou por esses terrenos até que foi se desligando dos ares etéreos para se tornar ‘‘mais realista’’. A tendência atual é o uso da história na literatura, que nada mais é que ‘‘um movimento político-cultural’’.
Mas lá se vão 32 anos de uma caminhada que rendeu até agora 50 títulos. E daí, qual o segredo? ‘‘Não tenho nenhuma fórmula para meus livros. Se você acredita no ato de escrever uma boa história, que vai fundo na experiência humana, com certeza o leitor irá corresponder’’.
A sensibilidade está em ambos os lados. Todo autor é vaidoso, mas se ele descuidar do narcisismo e se fizer muito presente na narrativa, o leitor se incomoda e afasta. Sábio aquele que escreve pedindo licença a quem o lê. ‘‘‘Prometo que vou tentar não te encher o saco’. Isso é coisa de maturidade, que a gente vai aprendendo somente com o passar do tempo. Quando se é jovem todo mundo se sente muito importante e acha que escreve coisas maravilhosas’’.

De bem com a vida

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